O CAMINHO DE VOLTA

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

int / restaurante. Noite

Pedro, Cristina e Vera jantam num restaurante discreto. Cristina e Vera falam entre si. Pedro permanece alheio. Há uma pessoa ausente da mesa, presume-se que seja Fernando.

Cristina
… gostei daquele. Era assim justo. Ficava-te bem.

Vera
Não gostei da cor. Amarelo? Não, obrigado.

Fernando regressa à mesa.

Fernando
Ainda a falar de roupa? Não têm mais nada pra falar?

Cristina
Tens inveja do quê?

Fernando
Eu não tenho inveja de nada.

Vera
Porque é que tu e o Pedro não falam de futebol?

Pedro não responde.

Fernando
Ele parece que não tá cá.
(estala os dedos)
Ei!

O empregado aproxima-se para tomar os pedidos.

Vera
Arroz de marisco par todos.

Empregado
Quantas doses?

Fernando
Quatro. Somos quatro, não somos?

Empregado
São doses grandes, senhor.

Fernando
E nós somos esfomeados.
(referindo-se a Pedro)
Olhe lá pra ele, parece que há uma semana que não come.

Cristina
Isso é alguma indirecta aos meus cozinhados?

Empregado
(toma nota)
E para beber?

Fernando
(falando sozinho)
Primeiro foi o filho, agora é o marido. Qualquer dia…

Vera
Vinho branco. Traga um jarro.

Cristina
(para Fernando)
Já viste que ninguém te está a ouvir?

O empregado afasta-se.

Pedro olha para o seu lado esquerdo. Para a janela.

PDV DE PEDRO

O exterior explode com uma luz branca. A rua dá lugar ao interior dum quarto de hospital. Pedro vê uma pessoa acamada.

Cristina (F.C.)
Querido?

Pedro assusta-se, olha para o seu lado direito. Cristina olha para ele com ar preocupado.

Cristina (cont.)
Passa-se alguma coisa?

Pedro olha novamente para o seu lado esquerdo. A janela desapareceu. Pedro esfrega os olhos.

Pedro
Não…

Cristina
Tens a certeza? Pareces—

Pedro
Já disse que não se passa nada, foda-se!
(levanta-se)
Deixem-me em paz!

Pedro afasta-se. Cristina olha para Fernando e Vera.

Cristina vai para falar quando algo a retém.

Pedro (f.C.)
O que é que fazes aqui?

Cristina olha para o lado. Pedro está a falar. Sozinho.

Pdv de pedro

Pedro está a falar com a mulher do vestido negro.

Pedro (cont.)
Quem és tu? Porque é que me andas a seguir?

Mulher do vestido negro
Chamo-me Isabel e estou aqui para te avisar.

Pedro
Avisar-me do quê?

Isabel
Tu não pertences aqui.

Pedro
Cala-te!

Pedro dá um murro em Isabel mas só acerta no ar. Isabel desapareceu.

Pedro
Onde é que te meteste, puta?

Fernando aproxima-se de Pedro. Põe-lhe a mão no ombro.

Fernando
Calma…

Pedro vira-se e dá-lhe um murro no nariz.

Pedro
Não me toques!

Cristina e Vera aproximam-se. Os empregados também. Fazem uma roda à volta de Pedro.

Cristina
Calma…

Pdv de pedro

Tudo anda à roda. As vozes são distorcidas.

Pedro arregala os olhos, começa a esfumar-se. Ataque epiléptico. Perde os sentidos.

E as trevas entram em cena.

O CAMINHO DE VOLTA

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

O PLOT

Pedro tem 33 anos e o que se pode chamar uma vida perfeita. Tudo corre de feição para Pedro. Pelo menos, durante o dia. À noite é atormentado por estranhos pesadelos. Imagens de um acidente de viação, com pessoas vagamente familiares, mas que ele não se lembra de ter visto, começam a tornar as suas noites incómodas.

A certa altura, Pedro começa a ver imagens do sonho durante o dia – imagens sobrepostas como se existissem duas realidades – e falhas de memória acentuadas.

Pouco tempo depois, Pedro é vítima dum estranho evento e acorda numa cama de hospital, com 56 anos. Os médicos informam-no que esteve em coma durante trinta anos após ter sido vítima de um atropelamento.

Pedro não se lembra de nada, mas tem a sensação de que a família que o acolhe não é a sua verdadeira família. E aí começa realmente a sua história.

A BASE

O pior para alguém que tem tudo na vida é, sem dúvida, acordar um dia e descobrir que tudo isso não passa duma ilusão. Quis escrever uma história sobre isso e sobre o processo de regressar à ilusão. Para isso conjuguei elementos reais sobre pessoas que estiveram em coma durante muitos anos – o seu despertar, o choque que a mudança de tempos, de mentalidades, lhes causou – com elementos do fantástico.

Pedro vivia num mundo de ilusão e acordou para a realidade ou será que foi o contrário? Ninguém sabe ao certo o que acontece quando estamos em coma e isso dá-me liberdade suficiente para escrever uma história credível.

O ATRASO – Guião

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

Versão Final

1 De Maio de 2002


Joel Gomes

SEQUÊNCIA NORMAL

CENA 1: INT / QUARTO. DIA

Paz e silêncio eternos.

No centro do quarto está uma cama. O seu habitante dorme o sono dos anjos.

O despertador indica 5:59.

Tudo está calmo e continuaria calmo se não fosse….

A quietude do momento é interrompida pelo som do despertador.

O homem acorda e olha para o relógio. Quando se apercebe das horas, levanta-se da cama. Pega na roupa que está em cima da cadeira e começa a vestir-se à pressa.

CENA 2: EXT / RUA. DIA

O homem sai de casa a correr. Um prédio antigo que insiste em sobreviver à força do tempo. Pela primeira vez, podemos vê-lo como ele é: um verdadeiro “executivo cliché”. Estão lá todos os itens, desde o fato e a gravata, sem esquecer a pasta com os documentos numa mão e o computador portátil na outra.

Seguimo-lo pela rua até à paragem do autocarro. Mesmo a tempo de ver o autocarro partir. Olha para o relógio. São 6:40. Dá um pontapé no poste e fica à rasca do pé.

CENA 3: INT / GABINETE. DIA

Um homem analisa uma série de papéis.

O escritório tem uma decoração que reflecte bem o tipo de homem que está perante nós. 

Numa parede, vemos uma prateleira com troféus de caça; cabeças de animais embalsamadas penduradas.

Na parede atrás de si, uma caçadeira bastante usada durante anos de caçadas.

Noutra parede, estão duas placas de ouro emolduradas. A primeira, “A LIBERAT AGRADECE A CUSTÓDIO SILVA RAMOS PELOS 25 ANOS DE DEDICAÇÃO”; a segunda, “A CUSTÓDIO SILVA RAMOS – MELHOR FUNCIONÁRIO DO ANO”.

Estes são alguns detalhes que confirmam o facto de estarmos perante um homem com sentido de oportunidade e determinação. Este é um homem que não se importa de subir uma escada feita de corpos humanos, desde que essa escada o leve ao sucesso.

O intercomunicador toca. O empresário carrega num botão.

PATRÃO
Sim?

SECRETÁRIA (V.O.)
Desculpe-me senhor Ramos, mas é só para avisá-lo que o senhor Santos já chegou.

RAMOS
Mande-o entrar.

SECRETÁRIA (V.O.)
Com certeza, senhor Ramos.

Ramos desliga o intercomunicador.

Alguém bate a porta.

RAMOS
Entre.

A porta abre-se e Santos entra no gabinete. Como seria de esperar, trata-se do “executivo cliché”.

SANTOS
Com licença. Posso?

Ramos responde ao seu subordinado com um leve aceno.

Santos entra no gabinete cabisbaixo. Um cordeiro que entra na toca do lobo esfomeado.

SANTOS
Senhor Ramos, peço desculpas pelo atraso. Deixe-me só dizer que…

RAMOS
Esteja calado! Não sei qual é a posição que você julga ter aqui nesta empresa mas, francamente, começo a ficar um bocadinho saturado das suas desculpas. Não há um dia que você não chegue atrasado. Se não é o autocarro que se atrasa, é o despertador que não toca.

SANTOS
Sim, mas…

RAMOS (CONT.)
Se não é o trânsito que não anda, é o elevador que fica encravado. Não sei. Sinceramente não sei o que é que hei de fazer consigo. Creio que vou ter que dispensar os seus serviços.

SANTOS
Por favor, senhor Ramos! Dê-me só mais uma oportunidade! Peço-lhe!

RAMOS
Você pensa que eu sou alguma alma gentil e caridosa?

Santos
Por acaso…

Ramos
Mas não sou.

Ramos olha para Santos durante alguns segundos e então é como se recebesse uma injecção de anfetaminas de generosidade. Até certo ponto.

RAMOS
Vou-lhe dar mais uma oportunidade. Aproveite bem porque é a última que eu lhe dou.

SANTOS
Diga, senhor Ramos.

RAMOS
Amanhã, quero-o aqui, neste escritório às oito em ponto. Não às 8:02. Não às 8:01. Às 8:00. Não me interessa se vem de avião, de barco, se quer passar aqui a noite. Faça como quiser, mas se você não estiver aqui às oito escusa de vir. Entendeu?

Santos
Sim, senhor Ramos.

RAMOS
Óptimo. É tudo por agora.

SANTOS
Obrigado, senhor Ramos.

Santos dirige-se para a porta. Existe uma disputa de emoções dentro de si, qualquer coisa pouco definida entre o alívio e o medo. Santos sai do escritório sem dizer uma palavra que seja.

CENA 4: INT / QUARTO. DIA

Voltamos ao quarto da primeira cena. Paz e silêncio.

Santos dorme o sono dos anjos.

O despertador indica 5:59. Durante alguns instantes observamos os números do despertador, os dois pontos que piscam sem parar, a passagem de segundos ocultos.

São agora 6:00. O irritante som do alarme quebra o silêncio da manhã. Santos acorda tranquilo. Está outra vez em cima da hora. Porém, mesmo consciente de que este é o último dia do resto da sua vida, não consegue abafar uma leve alegria interior.

Veste-se depressa, mais depressa que o habitual porém, sem qualquer atrapalhação. Fluidez de movimentos. A determinação é agora a rainha absoluta das suas emoções.

A forma militarizada como se veste revela os seus planos: hoje não irá chegar atrasado.

SEQUÊNCIA EM ANIMAÇÃO

CENA 5: EXT / RUA. DIA

Um flash luminoso sai da casa de Santos. Não conseguimos distinguir nenhuma forma no meio daquela luz. Podemos apenas supor que é Santos o responsável por aquele fenómeno.

Santos percorre a cidade em segundos. As pessoas parecem petrificadas à sua passagem. Estátuas humanas com movimentos lentos.

Então… A luz do dia desaparece. Santos pára de correr, olha para o céu e vê…

Dezenas, centenas, milhares de naves, uma verdadeira frota espacial que cobre o sol.

O seu alinhamento e as suas formas trazem de volta uma certa nostalgia do clássico “SPACE INVADERS”

A frota começa o seu ataque e o caos chega ao local. Vários prédios são destruídos, vidas são aniquiladas.

Santos tem uma mudança de papel. Do antigo “executivo cliché” passa para o “super-herói cliché”. Da capa ao cinto de utilidades, está lá tudo – até a máscara na cabeça e um “S” no peito.

Santos salva várias pessoas das naves. Mas, apercebe-se que a melhor solução seria eliminar o problema a partir da raiz.

Santos lança-se em direcção à frota inimiga. O reflexo de um voo picado. O falcão que voa sob a sua presa.

As naves são destruídas pela fúria implacável de Santos.

O inimigo só conhece uma emoção – raiva.

E é com essa raiva que se despede. Incapaz de aceitar a derrota, a frota auto-destrói-se em simultâneo.

Uma explosão de luz branca cobre todo o ecrã.

SEQUÊNCIA NORMAL


CENA 6: INT / QUARTO. DIA

De volta ao quarto.

O despertador indica 5:59.

Santos dorme tranquilamente.

Os números do despertador dão lugar à sequência seguinte. O alarme começa a tocar.

Santos desliga o despertador sem levantar a cabeça da almofada.

O despertador toca outra vez. Santos acorda e olha para o despertador. São 6:30.

Está trinta minutos atrasado mas, estranhamente, isso não o preocupa.

É então que aparece. A velha dúvida, a sensação de já ter feito aquilo antes, o mítico deja-vú. Será que foi tudo um sonho? Ele não sabe. Mas, mesmo assim, volta a cumprir o ritual do costume.

CENA 7: EXT / RUA. DIA

Chega à paragem do autocarro e novamente encontra-a vazia. Olha para o relógio: 7:15. A primeira ideia que surge é que o autocarro já passou há muito tempo.

Mas, essa ideia depressa desaparece quando se apercebe da situação à sua volta – não há carros na rua. Não há pessoas na rua, não há nada na rua. Alguns dos edifícios são montes de escombros.

Santos começa a caminhar, admirado pela desolação à sua volta. Olha para um dos edifícios destruídos.

FLASHBACK

SEQUÊNCIA ANIMAÇÃO

O prédio que Santos observa, ainda intacto, é destruído por uma das naves.

PRESENTE

SEQUÊNCIA NORMAL

Santos olha para outro edifício destruído e vê…

FLASHBACK

SEQUÊNCIA ANIMAÇÃO

… o edifício a ser destruído.

PRESENTE

SEQUÊNCIA NORMAL

Santos não sabe como reagir perante esta situação. Teria sido mesmo um sonho?

Santos pára de caminhar por uns momentos e olha para o relógio. São 7:30. Santos tem mais uma visão.

FLASHBACK

SEQUÊNCIA ANIMAÇÃO

Vemos mais um prédio a ser destruído. No topo do prédio está uma placa com o nome LIBERAT.

PRESENTE

SEQUÊNCIA NORMAL

O atraso deixa de ter significado. O importante agora é saber se tudo aquilo foi um sonho ou não.

Santos recomeça a caminhada. Depressa, depressa, depressa até começar a correr.

CENA 8: EXT / RUA. DIA

Santos encontra-se perante as ruínas de um edifício, o seu ex-local de trabalho. A placa gigante com as letras LIB diz tudo. O sonho foi real.

Um homem aproxima-se por trás de Santos. Uma vítima da guerra, um destroço humano.

Santos sente uma mão tocando no seu ombro e arrepia-se quando esse toque é procedido de uma voz. Uma voz familiar.

RAMOS
Santos…

Santos olha para trás e vê o seu antigo patrão num estado deplorável.

Santos
Senhor Ramos! Eu… eu…

RAMOS
Está despedido! Rua!

FIM

O ATRASO

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

PLOT

Santos é o típico empregado de escritório, um tipo que vive na esperança de que a sorte lhe bata à porta. Num dia como qualquer outro, Santos chega atrasado ao trabalho e Ramos, o seu patrão, faz-lhe um derradeiro ultimato. Caso chegue atrasado mais uma vez…

No dia seguinte, Santos faz os possíveis e os impossíveis para chegar a horas mas algumas circunstâncias bizarras vão tentar impedi-lo de atingir o seu objectivo.

BASE

O ATRASO foi uma segunda experiência, tanto para mim como para o David. Para ele porque foi a segunda curta-metragem que realizou; para mim porque foi a segunda que escrevi.

Tenho orgulho de dizer que O ATRASO contém a primeira cena de ficção científica de animação feita num filme português. Estamos a falar dum filme que não levou subsídios nem nada disso. Um filme feito à custa de muito suor e sacrifício. Façam a comparação com os filmes portugueses que vêem por aí (aqueles que recebem balúrdios a fundo perdido) e tirem daí as vossas conclusões.

Relembro os tempos de rodagem com saudade sempre que vejo o resultado final. Foi, sem dúvida, um filme que nos deu trabalho mas, também, prazer a fazer.

Tivemos a honra de trabalhar com dois senhores da representação. Um, o já ido Canto e Castro, com o seu espírito de jovem eterno sempre pronto a novas aventuras a criar um bom ambiente. (Foi-se o homem, ficou a obra.) O outro, bem mais jovem, mas não menos louco: Tiago Castro (o ‘Crómio). Confesso que não lhe desejava isso, mas trabalho é trabalho e o Tiago é um tipo versátil.

CURTAS-METRAGENS – PLOTS & BASES

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

p(l)ano de fundo

Paulo é um jovem à procura de emprego. Um dia vê no jornal o anúncio para o emprego perfeito. No dia seguinte, vai à entrevista. Mas…

A ideia original para esta curta-metragem partiu de Paulo Lameira, um amigo meu que trabalha como publicitário. As palavras dele foram ‘Tenho uma ideia para escreveres uma curta-metragem. A história não sei qual é, isso fica para tu pensares, só que acontece tudo em pano de fundo. É só um gajo a andar na rua e a história é contada aos bocados.’

Pareceu-me ser uma ideia interessante e decidi experimentar.

sonhos dentro de sonhos

Um homem é perseguido por uma criatura invisível. Não sabendo se está a dormir ou a sonhar, o homem tenta fugir, tenta ignorar. Mas o fim é sempre o mesmo.

Escrevi esta curta-metragem em pouco mais de cinco minutos. Não me lembro de onde veio a ideia, creio que foi daquelas que surgem assim de repente e, por sorte, temos papel e caneta à mão.

Os últimos quarenta minutos da minha vida

Roberto, e dois amigos seus, Júlio e Ricardo, fazem uma caçada na floresta. Um acidente acontece e Roberto leva um tiro na cabeça. É dado como morto, mas será que está mesmo?

Baseado numa história verídica. Li uma notícia no DN há uns anos atrás. A notícia relatava um acidente de caça do qual tinha resultado um morto. Só que a vítima demorou quarenta minutos até morrer.

Logo pensei que era uma ideia boa de explorar. Sobretudo se trabalhada do ponto de vista do fantástico, com algum humor à mistura.

ESPELHO FALSO

Um homem e uma mulher em mundos diferentes percorrem as ruas duma cidade vazia. No fim da sua viagem espera-lhes um espelho enorme que lhes permite passar para um outro mundo.

Começou por ser uma experiência de escrita sem grandes ambições ou enredos. A ideia era escrever duas histórias diferentes em simultâneo que culminassem num final comum.

No entanto, à medida que a ideia se foi desenvolvendo, comecei a explorar uma nova estratégia, desta feita mais ao nível técnico e não tanto narrativo.

EStranhas coincidências

Um homem à procura de emprego, um motorista de autocarro atrasado para o trabalho e uma noite de copos. São tudo estranhas coincidências.

Esta curta veio um pouco no seguimento de outra chamada ‘P(L)ANO DE FUNDO’. Usei novamente no conceito de história contada aos pedaços, combinando várias personagens cujas acções desencadeiam vários eventos que afectam pessoas com as quais não têm qualquer relação pessoal. É uma espécie de efeito borboleta, mas em ambiente controlado.

da lucidez à loucura ou…. era um psicólogo e agora sou uma cenoura

Três médicos analisam o caso de três homens responsáveis por um massacre ocorrido num hospital psiquiátrico semelhante ao mesmo onde eles se encontram. Desse evento resultou a morte de todos os funcionários e pacientes.

Os três médicos ponderam sobre a melhor terapia a seguir para tratar do caso em questão. Mas o caso revela-se mais complicado que isso.

Se não estou em erro, esta foi a terceira ou quarta curta-metragem que escrevi. A ideia original era bastante diferente do resultado final. Ficaram as influências lynchianas e o ambiente fantástico.

o limite da paciência

Um homem está no café a ler o jornal quando sente que está a ser observado. Olha à sua volta e apercebe-se que está um sujeito a olhar para ele fixamente. O homem tenta ignorá-lo mas acaba por sair do café. O homem segue-o. O homem começa então a ver a face do seu perseguidor em todo o lado.

Irrita-me estar num sítio público – café, transporte, o que for – e ter alguém a olhar para mim sem razão aparente. Com base nisso, decidi pegar nessa espécie social, o ‘olhador’, e levar a sensação de perseguição a um extremo que chega ao gore.

psicoapatia

Henrique é um perigoso sociopata que foge do hospital psiquiátrico onde se encontra a cumprir pena.

Fernando, um homem pacato, alheio a tudo isto, vive numa aldeia a vários quilómetros de distância destes acontecimentos. Infelizmente para si, a sua semelhança com o Henrique é assombrosa e a polícia acaba por prendê-lo numa Operação Stop. Enquanto isso, Henrique chega à aldeia onde Fernando vive e, vendo a forma como é tratado, decide assumir a vida do seu sósia.

A ideia não é nova – duas pessoas idênticas, com personalidades diferentes, trocam de identidade – mas pensei que era capaz de conseguir algo interessante. Inspirei-me um pouco, ainda que possa não ser muito óbvio, nos irmãos Cohen. O seu humor sarcástico, negro por vezes, foi uma grande ajuda para a escrita desta história. Juntei a isto algum suspense, sexo e violência. Um filme para a família, portanto. (Desde que esta seja disfuncional.)

do outro lado (a porta)

Uma família muda-se para um apartamento novo. Quando acabam de arrumar as malas, reparam numa porta fechada. Tentam abri-la, mas não conseguem. A vizinha do lado diz a Tiago, o filho mais velho do casal recém-chegado que os antigos inquilinos daquele apartamento tinham sido mortos e os corpos estavam escondidos atrás da porta fechada.

A ideia original para esta curta veio de Janine Ramos, uma amiga e ex-colega do curso de escrita para televisão e cinema. Ela teve a ideia e planeou a história; eu fiz a posterior passagem para guião. Tentei criar um ambiente aparentemente descontraído, com algum humor aqui e ali, cuja tensão vai aumentando até ao clímax final.

UMA HISTÓRIA PARA 90 SEGUNDOS

O argumentista do filme é arrancado da cama a meio da noite por dois homens de negro e levado para uma cela num lugar incerto. Um terceiro homem de negro aponta-lhe uma pistola à cabeça e diz ao argumentista para começar a escrever, dando-lhe um prazo de noventa segundos. Perante essa ameaça, o argumentista vê-se forçado a cumprir o que lhe mandam.

Uma breve experiência feita porque não tinha nenhuma ideia. Dei um ultimato a mim mesmo e foi aí que tudo surgiu. Tão simples quanto isso.



A FÓRMULA DA FELICIDADE

Pedro é um rapaz de treze anos que nutre uma forte paixão por Raquel, uma colega de turma extremamente atraente. Porém, o sentimento não é correspondido.

Um dia, o seu professor de matemática, fala duma notícia que leu no jornal e expõe no quadro uma fórmula elaborada por um grupo de psicólogos que, segundo eles, determina a felicidade.

Pedro resolve usar essa fórmula para conquistar Raquel e analisa cuidadosamente a notícia para tirar todos os elementos necessários.

A fórmula da felicidade é real, veio mesmo num jornal (daqueles a sério e não daqueles de café). Achei curioso alguém querer quantificar algo como a felicidade e decidi trabalhar isso sob o ponto de vista de alguém ainda não muito afectado pelos males do mundo.

Pedro é um rapaz na fase da puberdade, da descoberta de sentimentos como o amor. A sua reacção a algo como uma fórmula matemática para descrever algo que ele está a aprender a conhecer, pareceu-me ser uma ideia interessante de explorar.

a realidade sonhada

Um homem amargurado vagueia pela cidade. A certa altura o homem entra num parque e, ao chegar a uma zona de piqueniques, depara-se com uma cena bizarra. Sentados na relva a fazerem um piquenique estão ele, a sua mulher e a sua filha. De início pensa estar a sonhar e mantém-se afastado. Devido à sua hesitação, o homem vê a sua mulher e filha serem assassinadas à sua frente. O assassino dá um tiro na perna da sua “cópia” e deixa-o à sua sorte.

A história gira em torno da ideia de que os mortos ficam presos a este mundo se não os deixarmos ir. Fala também de escolhas erradas e do que tentamos fazer para alterar o inalterável.

Escrito em parceria com Janine Ramos.

A SAGA DO PEQUENO JOÃO III

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

O pequeno João e a abelha da Maia

Num belo dia de Verão, em pleno início do ano,[i] o pequeno João saltitava[ii] por um campo de papoilas verdejantes, ou por outra, um campo verdejante de papoilas[iii] quando ouviu um baita dum zumbido super-irritante. Aí o pequeno João olhou à sua volta, tentando encontrar a fonte daquele baita de zumbido super-irritante.

 (Tempo designado para o pequeno João procurar a fonte daquele baita de zumbido super-irritante)[iv]

Infelizmente, foi tempo perdido, porque como logo viria a descobrir, a fonte daquele baita de zumbido super-irritante não era uma fonte, e sim uma abelha. Uma abelha listrada, mas mesmo assim uma abelha.

Aí, sabendo que era de uma abelha que se tratava, o pequeno João disse:

- Vamo lá parar com essa zumbideira aí, pô!

- Bzzzz bzzzz.[v]

- Mas assim fica difícil falar.[vi]

- Tem razão.

- Bzzz bzzzz.

- O que foi que ela disse?[vii]

- Não foi pra você que eu perguntei.

Foi pra quem? Pra mim?

- Foi.

Não sei.

- Bzzz bzzz.[viii]

- Vamo nessa!

- Bzzz.[ix]

- Que falta de orgulho pessoal.[x]

- Bzzzz.[xi]

- O que é que lhe dói?

- Bzzzz.[xii]

- O que é que você tem?

- Bzzzz.[xiii]

- E isso é o quê?

Momento delicado enquanto o autor e o narrador pensam numa resposta para dar ao pequeno João.

É uma doença que afecta uma zona do corpo.

- Qual zona?

A da… a da… Ai! Ajuda-me![xiv]

A zona ao pé das bochechas?!

- A cara?

É isso! É… a cara. Ela tem uma doença ao pé da cara.

- Coitada.

É, coitada.

Não podias ter pensado noutra coisa?[xv]

- Quem será que fez isso pra ela?

Pergunta-lhe.

- Quem foi que fez isso pra você?

- Bzzz bzzz bzzzz.[xvi]

- Um urso? Nossa! Que negócio sujo!

E então chegamos ao momento da acção em que o pequeno João percebe que a história não está a fazer sentido porque toda a gente sabe que “bzzz” quer dizer “bzzz” e apenas “bzzz”.

- Esta história não está a fazer sentido e o resto que ele disse também.

E a culpa era do autor que não conseguiu pensar em nada melhor que a história das hemorróidas.[xvii]

Então, a abelha foi snifar pó e o pequeno João continuou saltitando pelo campo verdejante de papoilas.[xviii]

FIM

Versão original: Sir Arthur Kona Dóite

Versão luso-brasileira: Humberto Ricardo





[i] O ano novo é quando o homem quiser. É tipo Natal.

[ii] Tipo aquele coelho das pilhas.

[iii] Como o ópio é extraído da semente da papoila, percebem melhor a alusão ao coelho.

[iv] Eu sei que já usei esta piada. Mas o que é que queriam que eu dissesse quando ele tá à procura? Que foi às compras? Se ele tivesse ido às compras não estaria à procura de nada. Ou estaria?

[v] Não estão à espera que eu fale abelhês, ou estão?

[vi] Tu também nunca ligas àquilo que te dizem.

[vii] Eu é que sei?

[viii] Só pra isto andar um pouco, vamos todos fingir que eu falo abelhês. Quem estiver contra, levante a mão. Ninguém? Óptimo. Podemos continuar.

[ix] Olá amigos, eu sou a abelha da Maia.

[x] Foi mesmo só para o nome aparecer pelo menos uma vez na história.

[xi] Tou cá com umas dores.

[xii] Dói-me a alma e as entranhas.

[xiii] Acho que tenho hemorróidas.

[xiv] A zona ao pé das bochechas.

[xv] O que é que queres? Foi o que me veio à cabeça.

[xvi] Foi um urso.

[xvii] Na altura não te queixaste.

[xviii] Se as histórias deste livro fossem sequenciais, podíamos utilizar o facto do pequeno João estar alucinado como desculpa para tudo. Como não, vou ter de pensar noutra coisa.

A SAGA DO PEQUENO JOÃO III

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

O PLOT

Continuamos com as aventuras do tal sujeito como não há igual. Neste terceiro volume: variações promocionais (inclui a abelha da Maia, o génio do candeeiro a azeite e o grande Calimerov).

A BASE

Diz-se que não há duas sem três. Culpem os populares por este terceiro volume ainda em fase de criação.

A SAGA DO PEQUENO JOÃO II

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

AS AVENTURAS DO JOÃO SEM VIDA

Num belo dia de Verão o João sem vida estava acabando de terminar sua viagem até à Zona da Morte.[i] Aí, o João sem vida chegou ao fim do túnel e viu uma luz branca.[ii] Aí, o João sem vida olhou para o sítio donde estava a luz… era duma lâmpada. E à mais à frente estava… outra lâmpada. E à mais à frente estava… outra lâmpada. E à mais à frente estava… outra lâmpada. E ainda mais à frente estava não outra lâmpada mas sim…

[iii]

…. o Purgatório.[iv] Aí, o João sem vida olhou[v] e viu o Guardião do Purgatório – era o Purgador.

Depois de ter morrido, o João sem vida[vi] tinha que ser avaliado pelos seus actos afim de determinar se iria para o Céu ou para o Inferno. Embora, o João sem vida já tivesse visitado tanto o Céu como o Inferno. E até o Paraíso. E tinha sido expulso de todos. Ou seja, uma entidade morta que não pode ir para o Céu nem para o Inferno, nem para o Paraíso vai para onde?

- João.

- João sem vida.

- Calado! Tu morreste há três horas! Porque é que demoraste tanto tempo a chegar aqui?

- Perdi-me.

- Como é que te perdeste? O túnel é sempre em frente.

- Só descobri isso depois de ter atravessado aquela parede.[vii]

- Qual parede?

- A parede do túnel.

- Qual delas?

- Não sei. Estava escuro.

- Então como é que sabes que era uma parede? Podia ser o tecto, não podia?

- Podia.

- Continuando… Diz aqui no teu processo que foste expulso do Céu, do Inferno e do Paraíso. É verdade?

- Acho que sim.

- E como é que isso aconteceu?

Sei lá. Sei que do Inferno fui expulso por morder a cauda do pequeno demónio Satã. E fui expulso do Céu porque tinha sido expulso do Paraíso porque não tinha ajudado o grande pai Deus a acabar com as minhocas que estavam comendo suas maçãs premiadas.

- Ah…[viii]

Aí, o Guardião do Purgatório levantou-se da sua cadeira e foi pedir aconselhamentos aos espíritos mortos.[ix]

Depois de ter falado com os espíritos mortos o Guardião do Purgatório disse:

- Decidi que… Ai! OK! Decidimos que irás fazer uma viagem pela Dimensão da Negação. O sítio para onde enviamos os mortos sem destino.

- Eu não posso ir para aí.

- Porquê?

- Porque assim eu passo a ter um destino.

- Tens razão. Então vais para a Terra. Se provares que consegues viver na Terra, ficas lá e reencarnas. Senão vens para aqui trabalhar como varredor. Pessoalmente não sei o que era pior – isto até que está a precisar duma varridela – mas, não me apetece nada ter que te aturar.

- Tá bom!

- Agora… põe-te a andar!

Aí, o João sem vida saiu do Purgatório e voltou ao túnel e voltou à Terra. Só não voltou à vida porque tinha tido tanto trabalho a morrer que era chato ressuscitar já.

FIM

Versão original: Sir Arthur Kona Dói-Te

Versão luso-brasileira: Humberto Ricardo






[i] É difícil explicar porque é que era Verão, estando ele morto. Por isso, não me peçam para explicar isso, está bem? (P. N. A.) (Primeira Nota do Autor)

[ii] Não se pode variar muito nestes tópicos sobre a vida e a morte. Não existem muitas teorias comprovadas cientificamente que comprovem essas mesmas teorias. (S. N. A.) (Segunda Nota do Autor)

[iii] Estou a tentar criar suspense. Se bem que é um suspense um pouco forçado. (T. N. A.) (Terceira Nota do Autor)

[iv] Tanta coisa e nem sequer pus um ponto de exclamação. Não é que o Purgatório seja um sítio muito especial, antes pelo contrário, mas podia ter dado um bocadinho mais de ênfase. Só um bocadinho de nada. (Q. N. A.) (Quarta Nota do Autor)

[v] Se estão a pensar como é que um morto consegue andar, ver e fazer todas as coisas que fazia quando estava vivo, não pensem mais nisso. Alguém consegue explicar porque a gravidade não nos puxa para cima? (Q. N. A.) (Quinta Nota do Autor)

[vi] Reparem bem que ele só recebeu o nome de João sem vida depois de morrer. (S. N. A.) (Sexta Nota do Autor)

[vii] Qualquer morto que se preze é capaz de atravessar uma parede sem ter que a partir. O que não é o caso do João sem vida. (S. N. A.) (Sétima Nota do Autor)

[viii] Esta expressão designa toda a compreensão que é possível mostrar numa frase. (O. N. A.) (Oitava Nota do Autor)

[ix] Os espíritos mortos eram os espíritos dos mortos que tinham morrido depois de viver. Se os mortos podem andar e falar como se estivessem vivos, porque é que não hão-de poder morrer? (N. N. A.) (Nona Nota do Autor)

A SAGA DO PEQUENO JOÃO II

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

O PLOT

Continuação das aventuras dum sujeito como não há igual. Volume dois: variações existenciais, o dilema entre a vida e a morte (inclui o poema do pescador, Freud, os Jetsetsons e o grande Buda).

A BASE

Estava de férias e pensei ‘Porque não?’. Foi tão simples quanto isso; até porque o bom que estas histórias têm é eu não ter que me preocupar muito com gramáticas e sintaxes e porcarias dessas. Viva a liberdade do mau português!

A SAGA DO PEQUENO JOÃO I

Janeiro 3, 2008 by joelgomes

A HISTÓRIA DO PEQUENO JOÃO

Num belo dia de Verão, o pequeno João estava andando pelas ruas tentando arranjar algum dinheiro. De repente, uma velha senhora apareceu e o pequeno João tirou-lhe o seu dinheiro. Depois, o pequeno João fugiu. Ele parou junto da Lanchonete do Pato Escocês e olhou para o céu. Ele pensou: “Eu tenho alguma grana, mas ainda não é o bastante. Preciso de mais.”

E o pequeno João desapareceu no ar. E ele foi para o Céu. E lá, ele conheceu o pequeno garoto Jesus que não tinha um hamburger para o pequeno João. Mas o pequeno João era mais esperto e espancou o pequeno garoto Jesus. Mas depois, veio o grande pai Deus e expulsou ao pontapé o pobre pequeno João do Céu.

E depois, o pequeno João foi para o Inferno, onde ele conheceu o pequeno demónio Satã. Mas o pequeno demónio Satã também não tinha nenhuma comida. E o pequeno João cortou a cauda do pequeno demónio Satã. O pequeno demónio Satã ficou muito danado e o pequeno João foi enviado de volta para a terra.

Quando ele chegou lá, ele foi a uma casa de velhada e roubou alguns vovôs e vovós.

E depois, o pequeno João foi para a Lanchonete do Pato Escocês e tomou um belo pequeno-almoço às seis da tarde.

FIM

Versão original: Sir Arthur Kona Dói-Te

Versão luso brasileira: Humberto Ricardo