Versão Final
1 De Maio de 2002
Joel Gomes
SEQUÊNCIA NORMAL
CENA 1: INT / QUARTO. DIA
Paz e silêncio eternos.
No centro do quarto está uma cama. O seu habitante dorme o sono dos anjos.
O despertador indica 5:59.
Tudo está calmo e continuaria calmo se não fosse….
A quietude do momento é interrompida pelo som do despertador.
O homem acorda e olha para o relógio. Quando se apercebe das horas, levanta-se da cama. Pega na roupa que está em cima da cadeira e começa a vestir-se à pressa.
CENA 2: EXT / RUA. DIA
O homem sai de casa a correr. Um prédio antigo que insiste em sobreviver à força do tempo. Pela primeira vez, podemos vê-lo como ele é: um verdadeiro “executivo cliché”. Estão lá todos os itens, desde o fato e a gravata, sem esquecer a pasta com os documentos numa mão e o computador portátil na outra.
Seguimo-lo pela rua até à paragem do autocarro. Mesmo a tempo de ver o autocarro partir. Olha para o relógio. São 6:40. Dá um pontapé no poste e fica à rasca do pé.
CENA 3: INT / GABINETE. DIA
Um homem analisa uma série de papéis.
O escritório tem uma decoração que reflecte bem o tipo de homem que está perante nós.
Numa parede, vemos uma prateleira com troféus de caça; cabeças de animais embalsamadas penduradas.
Na parede atrás de si, uma caçadeira bastante usada durante anos de caçadas.
Noutra parede, estão duas placas de ouro emolduradas. A primeira, “A LIBERAT AGRADECE A CUSTÓDIO SILVA RAMOS PELOS 25 ANOS DE DEDICAÇÃO”; a segunda, “A CUSTÓDIO SILVA RAMOS – MELHOR FUNCIONÁRIO DO ANO”.
Estes são alguns detalhes que confirmam o facto de estarmos perante um homem com sentido de oportunidade e determinação. Este é um homem que não se importa de subir uma escada feita de corpos humanos, desde que essa escada o leve ao sucesso.
O intercomunicador toca. O empresário carrega num botão.
PATRÃO
Sim?
SECRETÁRIA (V.O.)
Desculpe-me senhor Ramos, mas é só para avisá-lo que o senhor Santos já chegou.
RAMOS
Mande-o entrar.
SECRETÁRIA (V.O.)
Com certeza, senhor Ramos.
Ramos desliga o intercomunicador.
Alguém bate a porta.
RAMOS
Entre.
A porta abre-se e Santos entra no gabinete. Como seria de esperar, trata-se do “executivo cliché”.
SANTOS
Com licença. Posso?
Ramos responde ao seu subordinado com um leve aceno.
Santos entra no gabinete cabisbaixo. Um cordeiro que entra na toca do lobo esfomeado.
SANTOS
Senhor Ramos, peço desculpas pelo atraso. Deixe-me só dizer que…
RAMOS
Esteja calado! Não sei qual é a posição que você julga ter aqui nesta empresa mas, francamente, começo a ficar um bocadinho saturado das suas desculpas. Não há um dia que você não chegue atrasado. Se não é o autocarro que se atrasa, é o despertador que não toca.
SANTOS
Sim, mas…
RAMOS (CONT.)
Se não é o trânsito que não anda, é o elevador que fica encravado. Não sei. Sinceramente não sei o que é que hei de fazer consigo. Creio que vou ter que dispensar os seus serviços.
SANTOS
Por favor, senhor Ramos! Dê-me só mais uma oportunidade! Peço-lhe!
RAMOS
Você pensa que eu sou alguma alma gentil e caridosa?
Santos
Por acaso…
Ramos
Mas não sou.
Ramos olha para Santos durante alguns segundos e então é como se recebesse uma injecção de anfetaminas de generosidade. Até certo ponto.
RAMOS
Vou-lhe dar mais uma oportunidade. Aproveite bem porque é a última que eu lhe dou.
SANTOS
Diga, senhor Ramos.
RAMOS
Amanhã, quero-o aqui, neste escritório às oito em ponto. Não às 8:02. Não às 8:01. Às 8:00. Não me interessa se vem de avião, de barco, se quer passar aqui a noite. Faça como quiser, mas se você não estiver aqui às oito escusa de vir. Entendeu?
Santos
Sim, senhor Ramos.
RAMOS
Óptimo. É tudo por agora.
SANTOS
Obrigado, senhor Ramos.
Santos dirige-se para a porta. Existe uma disputa de emoções dentro de si, qualquer coisa pouco definida entre o alívio e o medo. Santos sai do escritório sem dizer uma palavra que seja.
CENA 4: INT / QUARTO. DIA
Voltamos ao quarto da primeira cena. Paz e silêncio.
Santos dorme o sono dos anjos.
O despertador indica 5:59. Durante alguns instantes observamos os números do despertador, os dois pontos que piscam sem parar, a passagem de segundos ocultos.
São agora 6:00. O irritante som do alarme quebra o silêncio da manhã. Santos acorda tranquilo. Está outra vez em cima da hora. Porém, mesmo consciente de que este é o último dia do resto da sua vida, não consegue abafar uma leve alegria interior.
Veste-se depressa, mais depressa que o habitual porém, sem qualquer atrapalhação. Fluidez de movimentos. A determinação é agora a rainha absoluta das suas emoções.
A forma militarizada como se veste revela os seus planos: hoje não irá chegar atrasado.
SEQUÊNCIA EM ANIMAÇÃO
CENA 5: EXT / RUA. DIA
Um flash luminoso sai da casa de Santos. Não conseguimos distinguir nenhuma forma no meio daquela luz. Podemos apenas supor que é Santos o responsável por aquele fenómeno.
Santos percorre a cidade em segundos. As pessoas parecem petrificadas à sua passagem. Estátuas humanas com movimentos lentos.
Então… A luz do dia desaparece. Santos pára de correr, olha para o céu e vê…
Dezenas, centenas, milhares de naves, uma verdadeira frota espacial que cobre o sol.
O seu alinhamento e as suas formas trazem de volta uma certa nostalgia do clássico “SPACE INVADERS”
A frota começa o seu ataque e o caos chega ao local. Vários prédios são destruídos, vidas são aniquiladas.
Santos tem uma mudança de papel. Do antigo “executivo cliché” passa para o “super-herói cliché”. Da capa ao cinto de utilidades, está lá tudo – até a máscara na cabeça e um “S” no peito.
Santos salva várias pessoas das naves. Mas, apercebe-se que a melhor solução seria eliminar o problema a partir da raiz.
Santos lança-se em direcção à frota inimiga. O reflexo de um voo picado. O falcão que voa sob a sua presa.
As naves são destruídas pela fúria implacável de Santos.
O inimigo só conhece uma emoção – raiva.
E é com essa raiva que se despede. Incapaz de aceitar a derrota, a frota auto-destrói-se em simultâneo.
Uma explosão de luz branca cobre todo o ecrã.
SEQUÊNCIA NORMAL
CENA 6: INT / QUARTO. DIA
De volta ao quarto.
O despertador indica 5:59.
Santos dorme tranquilamente.
Os números do despertador dão lugar à sequência seguinte. O alarme começa a tocar.
Santos desliga o despertador sem levantar a cabeça da almofada.
O despertador toca outra vez. Santos acorda e olha para o despertador. São 6:30.
Está trinta minutos atrasado mas, estranhamente, isso não o preocupa.
É então que aparece. A velha dúvida, a sensação de já ter feito aquilo antes, o mítico deja-vú. Será que foi tudo um sonho? Ele não sabe. Mas, mesmo assim, volta a cumprir o ritual do costume.
CENA 7: EXT / RUA. DIA
Chega à paragem do autocarro e novamente encontra-a vazia. Olha para o relógio: 7:15. A primeira ideia que surge é que o autocarro já passou há muito tempo.
Mas, essa ideia depressa desaparece quando se apercebe da situação à sua volta – não há carros na rua. Não há pessoas na rua, não há nada na rua. Alguns dos edifícios são montes de escombros.
Santos começa a caminhar, admirado pela desolação à sua volta. Olha para um dos edifícios destruídos.
FLASHBACK
SEQUÊNCIA ANIMAÇÃO
O prédio que Santos observa, ainda intacto, é destruído por uma das naves.
PRESENTE
SEQUÊNCIA NORMAL
Santos olha para outro edifício destruído e vê…
FLASHBACK
SEQUÊNCIA ANIMAÇÃO
… o edifício a ser destruído.
PRESENTE
SEQUÊNCIA NORMAL
Santos não sabe como reagir perante esta situação. Teria sido mesmo um sonho?
Santos pára de caminhar por uns momentos e olha para o relógio. São 7:30. Santos tem mais uma visão.
FLASHBACK
SEQUÊNCIA ANIMAÇÃO
Vemos mais um prédio a ser destruído. No topo do prédio está uma placa com o nome LIBERAT.
PRESENTE
SEQUÊNCIA NORMAL
O atraso deixa de ter significado. O importante agora é saber se tudo aquilo foi um sonho ou não.
Santos recomeça a caminhada. Depressa, depressa, depressa até começar a correr.
CENA 8: EXT / RUA. DIA
Santos encontra-se perante as ruínas de um edifício, o seu ex-local de trabalho. A placa gigante com as letras LIB diz tudo. O sonho foi real.
Um homem aproxima-se por trás de Santos. Uma vítima da guerra, um destroço humano.
Santos sente uma mão tocando no seu ombro e arrepia-se quando esse toque é procedido de uma voz. Uma voz familiar.
RAMOS
Santos…
Santos olha para trás e vê o seu antigo patrão num estado deplorável.
Santos
Senhor Ramos! Eu… eu…
RAMOS
Está despedido! Rua!
FIM