AS AVENTURAS DO JOÃO SEM VIDA
Num belo dia de Verão o João sem vida estava acabando de terminar sua viagem até à Zona da Morte.[i] Aí, o João sem vida chegou ao fim do túnel e viu uma luz branca.[ii] Aí, o João sem vida olhou para o sítio donde estava a luz… era duma lâmpada. E à mais à frente estava… outra lâmpada. E à mais à frente estava… outra lâmpada. E à mais à frente estava… outra lâmpada. E ainda mais à frente estava não outra lâmpada mas sim…
…. o Purgatório.[iv] Aí, o João sem vida olhou[v] e viu o Guardião do Purgatório – era o Purgador.
Depois de ter morrido, o João sem vida[vi] tinha que ser avaliado pelos seus actos afim de determinar se iria para o Céu ou para o Inferno. Embora, o João sem vida já tivesse visitado tanto o Céu como o Inferno. E até o Paraíso. E tinha sido expulso de todos. Ou seja, uma entidade morta que não pode ir para o Céu nem para o Inferno, nem para o Paraíso vai para onde?
- João.
- João sem vida.
- Calado! Tu morreste há três horas! Porque é que demoraste tanto tempo a chegar aqui?
- Perdi-me.
- Como é que te perdeste? O túnel é sempre em frente.
- Só descobri isso depois de ter atravessado aquela parede.[vii]
- Qual parede?
- A parede do túnel.
- Qual delas?
- Não sei. Estava escuro.
- Então como é que sabes que era uma parede? Podia ser o tecto, não podia?
- Podia.
- Continuando… Diz aqui no teu processo que foste expulso do Céu, do Inferno e do Paraíso. É verdade?
- Acho que sim.
- E como é que isso aconteceu?
Sei lá. Sei que do Inferno fui expulso por morder a cauda do pequeno demónio Satã. E fui expulso do Céu porque tinha sido expulso do Paraíso porque não tinha ajudado o grande pai Deus a acabar com as minhocas que estavam comendo suas maçãs premiadas.
- Ah…[viii]
Aí, o Guardião do Purgatório levantou-se da sua cadeira e foi pedir aconselhamentos aos espíritos mortos.[ix]
Depois de ter falado com os espíritos mortos o Guardião do Purgatório disse:
- Decidi que… Ai! OK! Decidimos que irás fazer uma viagem pela Dimensão da Negação. O sítio para onde enviamos os mortos sem destino.
- Eu não posso ir para aí.
- Porquê?
- Porque assim eu passo a ter um destino.
- Tens razão. Então vais para a Terra. Se provares que consegues viver na Terra, ficas lá e reencarnas. Senão vens para aqui trabalhar como varredor. Pessoalmente não sei o que era pior – isto até que está a precisar duma varridela – mas, não me apetece nada ter que te aturar.
- Tá bom!
- Agora… põe-te a andar!
Aí, o João sem vida saiu do Purgatório e voltou ao túnel e voltou à Terra. Só não voltou à vida porque tinha tido tanto trabalho a morrer que era chato ressuscitar já.
FIM
Versão original: Sir Arthur Kona Dói-Te
Versão luso-brasileira: Humberto Ricardo
[i] É difícil explicar porque é que era Verão, estando ele morto. Por isso, não me peçam para explicar isso, está bem? (P. N. A.) (Primeira Nota do Autor)
[ii] Não se pode variar muito nestes tópicos sobre a vida e a morte. Não existem muitas teorias comprovadas cientificamente que comprovem essas mesmas teorias. (S. N. A.) (Segunda Nota do Autor)
[iii] Estou a tentar criar suspense. Se bem que é um suspense um pouco forçado. (T. N. A.) (Terceira Nota do Autor)
[iv] Tanta coisa e nem sequer pus um ponto de exclamação. Não é que o Purgatório seja um sítio muito especial, antes pelo contrário, mas podia ter dado um bocadinho mais de ênfase. Só um bocadinho de nada. (Q. N. A.) (Quarta Nota do Autor)
[v] Se estão a pensar como é que um morto consegue andar, ver e fazer todas as coisas que fazia quando estava vivo, não pensem mais nisso. Alguém consegue explicar porque a gravidade não nos puxa para cima? (Q. N. A.) (Quinta Nota do Autor)
[vi] Reparem bem que ele só recebeu o nome de João sem vida depois de morrer. (S. N. A.) (Sexta Nota do Autor)
[vii] Qualquer morto que se preze é capaz de atravessar uma parede sem ter que a partir. O que não é o caso do João sem vida. (S. N. A.) (Sétima Nota do Autor)
[viii] Esta expressão designa toda a compreensão que é possível mostrar numa frase. (O. N. A.) (Oitava Nota do Autor)
[ix] Os espíritos mortos eram os espíritos dos mortos que tinham morrido depois de viver. Se os mortos podem andar e falar como se estivessem vivos, porque é que não hão-de poder morrer? (N. N. A.) (Nona Nota do Autor)