O pequeno João e a abelha da Maia
Num belo dia de Verão, em pleno início do ano,[i] o pequeno João saltitava[ii] por um campo de papoilas verdejantes, ou por outra, um campo verdejante de papoilas[iii] quando ouviu um baita dum zumbido super-irritante. Aí o pequeno João olhou à sua volta, tentando encontrar a fonte daquele baita de zumbido super-irritante.
(Tempo designado para o pequeno João procurar a fonte daquele baita de zumbido super-irritante)[iv]
Infelizmente, foi tempo perdido, porque como logo viria a descobrir, a fonte daquele baita de zumbido super-irritante não era uma fonte, e sim uma abelha. Uma abelha listrada, mas mesmo assim uma abelha.
Aí, sabendo que era de uma abelha que se tratava, o pequeno João disse:
- Vamo lá parar com essa zumbideira aí, pô!
- Bzzzz bzzzz.[v]
- Mas assim fica difícil falar.[vi]
- Tem razão.
- Bzzz bzzzz.
- O que foi que ela disse?[vii]
- Não foi pra você que eu perguntei.
Foi pra quem? Pra mim?
- Foi.
Não sei.
- Bzzz bzzz.[viii]
- Vamo nessa!
- Bzzz.[ix]
- Que falta de orgulho pessoal.[x]
- Bzzzz.[xi]
- O que é que lhe dói?
- Bzzzz.[xii]
- O que é que você tem?
- Bzzzz.[xiii]
- E isso é o quê?
Momento delicado enquanto o autor e o narrador pensam numa resposta para dar ao pequeno João.
É uma doença que afecta uma zona do corpo.
- Qual zona?
A da… a da… Ai! Ajuda-me![xiv]
A zona ao pé das bochechas?!
- A cara?
É isso! É… a cara. Ela tem uma doença ao pé da cara.
- Coitada.
É, coitada.
Não podias ter pensado noutra coisa?[xv]
- Quem será que fez isso pra ela?
Pergunta-lhe.
- Quem foi que fez isso pra você?
- Bzzz bzzz bzzzz.[xvi]
- Um urso? Nossa! Que negócio sujo!
E então chegamos ao momento da acção em que o pequeno João percebe que a história não está a fazer sentido porque toda a gente sabe que “bzzz” quer dizer “bzzz” e apenas “bzzz”.
- Esta história não está a fazer sentido e o resto que ele disse também.
E a culpa era do autor que não conseguiu pensar em nada melhor que a história das hemorróidas.[xvii]
Então, a abelha foi snifar pó e o pequeno João continuou saltitando pelo campo verdejante de papoilas.[xviii]
FIM
Versão original: Sir Arthur Kona Dóite
Versão luso-brasileira: Humberto Ricardo
[i] O ano novo é quando o homem quiser. É tipo Natal.
[ii] Tipo aquele coelho das pilhas.
[iii] Como o ópio é extraído da semente da papoila, percebem melhor a alusão ao coelho.
[iv] Eu sei que já usei esta piada. Mas o que é que queriam que eu dissesse quando ele tá à procura? Que foi às compras? Se ele tivesse ido às compras não estaria à procura de nada. Ou estaria?
[v] Não estão à espera que eu fale abelhês, ou estão?
[vi] Tu também nunca ligas àquilo que te dizem.
[vii] Eu é que sei?
[viii] Só pra isto andar um pouco, vamos todos fingir que eu falo abelhês. Quem estiver contra, levante a mão. Ninguém? Óptimo. Podemos continuar.
[ix] Olá amigos, eu sou a abelha da Maia.
[x] Foi mesmo só para o nome aparecer pelo menos uma vez na história.
[xi] Tou cá com umas dores.
[xii] Dói-me a alma e as entranhas.
[xiii] Acho que tenho hemorróidas.
[xiv] A zona ao pé das bochechas.
[xv] O que é que queres? Foi o que me veio à cabeça.
[xvi] Foi um urso.
[xvii] Na altura não te queixaste.
[xviii] Se as histórias deste livro fossem sequenciais, podíamos utilizar o facto do pequeno João estar alucinado como desculpa para tudo. Como não, vou ter de pensar noutra coisa.