O homem que não estava lá
Assim, entrei no bar e dirigi-me de imediato ao balcão. Não fazia ideia das horas, mas palpitava-me que não passava muito das três da tarde. Sentei-me e esperei até que o empregado dessa pela minha presença. (Prefiro assim a admitir que ele me ignorava propositadamente.) Este, ligeiramente curvado, passava um pano – húmido, supunha, embora saber isso não me interessasse muito – nas mesas; decerto mais sujas de pó, que propriamente de comida.
Olhei à minha volta, tinha tempo para esperar. Ou para ser ignorado, conforme. A decoração do bar era toda em madeira; ou, pelo menos, imitação de. Aqui e ali, um quadro daqueles em que figuras (as)simétricas formam uma face, um corpo ou um outro objecto inanimado. Li num livro ou numa revista, não me recordo bem onde, o nome disso. Quer dizer, acho que li. Talvez seja eu na minha ignorância a supor que uma coisa assim tem nome. Deve ter, não é? Nós, humanos, temos tendência para dar nome a tudo.
Tossi, sem intenção expressa de alertar alguém. O que é certo é que, com ou sem intenção, o empregado, finalmente, deu pela minha presença. Como havia esperado pouco para ser atendido – isto, no entender dele, não no meu – pediu-me para esperar mais um pouco. Só até acabar o serviço.
Acedi ao seu pedido. Não com prazer, que fique isso bem claro, mas com relativa facilidade. Vistas as coisas, não tinha mesmo nada para fazer. Podia esperar o tempo que fosse preciso. É como tirar um dia ou uma tarde para ir às Finanças ou à Segurança Social tratar de qualquer coisa. Podemos lá estar o dia todo. Podemos, não queremos, mas tem de ser.
Lá o empregado acabou – ou pausou – a sua tarefa de remoção de impurezas várias, pendurou o pano nas costas duma cadeira e dirigiu-se ao outro lado do balcão para me atender.
Olhei para a prateleira e vi que além dos lotes de café normal, tinham também disponíveis lotes de outros países. Pedi ao empregado um à sua escolha. O seu favorito. Respondeu-me que não tinha, que não bebia café. Um qualquer, então.
Enquanto ele tirava o café – não cheguei a ver qual o lote escolhido, nem me apeteceu perguntar – pedi-lhe que ligasse a televisão.
Ele colocou a chávena fumegante num pires à minha frente, desviando ligeiramente a colher, pegou no telecomando debaixo do balcão e acendeu a televisão. Feito isto, regressou ao meu lado da fronteira e retomou a sua tarefa de limpeza das mesas.
Em cima do balcão estavam dois potes com pacotes de açúcar – adoçante nem vê-lo –, tirei um pacote, adicionei a quantidade mínima desejada e mexi o suficiente. Despi o casaco e pousei-o no banco ao meu lado, tendo o cuidado de dobrá-lo, de modo a que não caísse no chão.
Na televisão estava a passar um dos habituais programas de início de tarde. Pedi ao empregado se podia mudar de canal, para um de notícias. Ao que ele respondeu que só tinha quatro canais disponíveis. Sabendo eu da oferta promovida pelos outros três canais àquela hora, decidi ficar-me por ali. Ao menos, a apresentadora deste tinha um bom par. Sempre tornava a coisa mais suportável. (Ah! Como gosto do Verão…)
Reconheci um dos convidados do programa em questão como sendo uma figura proeminente do nosso jet set (seja lá o que isso for). Não que isso tenha algum interesse para mim. É apenas uma daquelas coisas que se sabe.
Só então provei o café. Havia arrefecido entretanto mas, ao longo dos anos, habituara-me a tomar o café frio. Continuava a não gostar; só que chega a uma altura em que, mesmo não gostando das coisas, conseguimos suportá-las, porque o corpo e a mente já se habituaram a elas. Sorvi-o em golos pequenos, intervalados como relances à televisão e ao decote da apresentadora.
Não sendo esse o seu propósito, o café ajudou-me a relaxar um pouco. Senti a tensão acumulada dos últimos tempos a desanuviar. Uma estranha tranquilidade apoderava-se de mim; efeito contrário, quase profano, ao que seria de esperar duma bebida estimulante.
Pousei a chávena vazia e perguntei ao empregado se não tinha nenhum jornal que eu pudesse ler. Disse que sim, que estava debaixo do balcão. Era só esticar o braço. Assim fiz.
Comecei a desfolhá-lo sem olhar para as manchetes. Avancei até à secção que me interessava, a secção de necrologia. Por motivos pessoais e não profissionais. Li os vários obituários. O que me interessava não estava lá. É pena. Gostava de ler o que foi que eles escreveram. Se calhar houve algum atraso nos Correios ou isso.
O velório tinha sido ontem. Hoje seria, ou melhor, está a ser o funeral. Era suposto eu lá estar. Sei que vão notar a minha ausência, mas que se lixe. Sempre fui uma pessoa assídua e pontual. Nunca faltei a um compromisso assumido. É a primeira vez que o faço. E se o faço é porque tenho motivos para tal.
Não me apeteceu.
É tão bom motivo com qualquer outro. Além disso, não aceitei nada. Fui… obrigado a estar presente. E eu detesto ser obrigado a fazer seja o que for.
Pelo menos é um motivo honesto. Motivos honestos é algo que não se encontra muito nos dias que correm; há que respeitá-los por isso.
Continuei a ler o jornal com o intuito de me inteirar dos últimos acontecimentos.
O empregado terminou o seu serviço e regressou ao seu posto do lado de lá da fronteira. Pegou na loiça à minha frente e colocou-a no lava-loiça. Quando tivesse mais logo lavava, deu a entender. Serviu-se duma imperial e passou novamente a fronteira para se sentar ao meu lado.
Senti que era o momento certo para dizer algo. Não tinha muito para dizer e, julgando pelo aspecto do local, as oportunidades para conversar não deviam ser muitas. Talvez ele fizesse por isso, por se limitar a servir os clientes e pouco mais, talvez não gostasse de conversar, preferisse que o deixassem em paz. Paciência. Também há muita coisa que eu não gosto e que tenho de fazer. E aqui fazia-o, não por implicância, mas por impulso. Um estranho impulso, tão contrário à minha natureza, como beber café para me acalmar.
Pousei o jornal e perguntei-lhe se era costume o bar estar tão vazio. Ele disse-me que aquilo é uma zona pouco frequentada, que as pessoas só param ali quando não sabem para onde vão. Cliente que sai, não torna a entrar, disse lá. Muitos não sabem sequer que o sítio existe. Só quando é preciso.
Partilhei com ele algumas ideias sobre como divulgar o bar e atrair clientes de forma rápida e regular. Comecei por explicar os diversos meios de divulgação que tinha ao seu dispor, os custos que teria, os ganhos. Sugeri-lhe alguns slogans. Nada por aí além, frases simples, feitas no momento. Com tempo, disse-lhe, conseguiria fazer melhor.
Perguntou-me se eu estava na área da publicidade. Eu disse que sim, estava. Mas, infelizmente, continuei, estava já afastado desse mundo.
É pena, disse ele. E pareceu ser sincero. Mais sincero do que quando aceitou que lhe falasse sobre promoções e divulgações. Deixara-me falar por favor, mas como eu não lhe pedira nada, não me sentia minimamente incomodado.
Já se decidiu, perguntou ele.
Não tinha nada para decidir. Ou tinha?
Por minha decisão faltei a um funeral a que era suposto ter ido. Estava tenso, decidira ir dar uma volta, tomar um café, desanuviar. Tinha decidido fazer isso. E de momento não havia mais nada para decidir.
Tornou a perguntar acerca da minha decisão, como se fosse sua a responsabilidade de me questionar e saber.
Decidir o quê?
Para onde vai, depois de sair.
Para casa.
Já é tarde para você ir para casa.
Nunca é tarde para ir para casa. Para ver a mulher e os filhos. Eles estão à minha espera. Não me posso atrasar.
Estarão mesmo?
Imagens sangrentas de corpos mutilados, enfiados em sacos térmicos e arruinados junto a ervilhas e carne numa arca congeladora invadiram o pequeno ecrã de televisão. Senti-me enjoado. Pela acção em si também, mas mais por ser eu o autor de tamanha carnificina. De machado na mão e olhar vazio, cortava membros, decepava troncos. O sangue jorrava dos corpos como fontes. Golpes certeiros calavam os gritos.
Era um pesadelo. Só podia ser.
O empregado olhava para a televisão. Decerto não via o mesmo que eu ou não estaria tão tranquilo. Sentia o meu coração acelerar, as forças a abandonarem-me como se fosse perder os sentidos. Mas não perdi. Aguentei. E continuei a ver. Era incapaz de suportar o horror, porém, era também incapaz de o ignorar por muito que tentasse.
Um último golpe num corpo já sem vida e vi-me a pousar o machado. Vi-me dirigir à cozinha, lavar as mãos, preparar uma sandes e uma bebida e regressar à sala, sentar-me no sofá, junto do torso de um meu filho – era difícil saber qual – e comecei a comer. Acendi a televisão. No ecrã panorâmico tornava-me a ver, desta vez no bar. Era um ciclo sem fim aparente.
E agora, já se decidiu, tornou o empregado a perguntar.
Não conseguia responder. Só me interessava saber como havia arranjado aquilo. Que sítio era aquele.
Isto é só um local de passagem para os indecisos.
Não era real. Nada era real. Eles estavam vivos. Tinham que estar.
Vai demorar muito, parecia irritado, tenho mais que fazer.
Como foi que vim aqui parar?
Da mesma maneira que os outros. Sem saber. Só quem não sabe para onde vai, ou que não sabe que tem de ir para algum lado é que vem aqui ter. Este local é um imane para os indecisos. Usou o adjectivo deixando ver que já se começava a cansar de o dizer tantas vezes.
Mas eu sabia. Sabia e tinha a certeza que o que sabia era verdade e não somente fruto da minha imaginação.
Sabia que tinha saído tarde de casa. Sabia que o resto já tinha saído antes de eu acordar. Sabia que era suposto ir a um funeral. Sabia que em vez disso tinha decidido ir ali.
Mas porquê?
Nem a minha casa, nem o meu trabalho ficavam ali perto. Sei que procurara um sítio fora da minha zona, um sítio onde ninguém me conhecesse, onde pudesse estar sem ter pessoas a perguntar então, que fazes aqui? Passara por outros sítios antes de encontrar aquele, só que não havia passado da porta.
O que me trouxera ali?
Teria sido apenas por ser uma zona onde me pudesse isolar? Acalmar? Reflectir? Ou seria um destino traçado, independente do caminho que percorresse, das escolhas que fizesse?
Era suposto eu ter ido a um funeral hoje, disse ao empregado. Queriam que eu falasse qualquer coisa.
Quem foi que morreu?
Foi…
Não me lembrava.
Foi alguém muito próximo. Disso tenho a certeza.
Voltaram as imagens ao ecrã, accionadas pelo momento, ou pelo subconsciente ou pelo que fosse. De novo o horror, desta vez com um pequeno extra.
Deitado na banheira, de água a correr, eu passava a lâmina do machado pelos pulsos. Cabeça tombada para trás, o sangue misturava-se com a água. A imagem parou ali.
Arregacei as mangas da camisa e vi os cortes feitos nos pulsos.
Eu também morri?
Pode-se dizer que sim.
Que raio de resposta é essa? Onde está a minha família? Que foi que lhes fizeram?
Nós, nada.
Não era real. Não podia ser real.
E eu? Eu fiz alguma coisa?
Acabou de testemunhar as suas últimas memórias.
Não…
Eu disse que isto era um local para os indecisos tomarem as suas decisões.
Que sítio é este?
Não posso dizer o nome. Apenas o posso encaminhar.
Ajude-me…
Aqui vêem os indecisos, cientes ou não de que têm um caminho a percorrer. Aqui revêem não apenas as suas memórias, como também os seus pensamentos.
Quer dizer que…?
A sua família continua viva. O que viu foram os seus últimos pensamentos antes de…
Eu não os matei?
Não. Queria matá-los, mas resistiu ao impulso.
E agora?
Agora tem de decidir para onde vai quando sair daqui.
Só tenho duas opções, não é?
Cada um sabe de si. Uma vez feita a escolha, há apenas um caminho à nossa espera.
Nunca pensei que pudesse escolher. Para dizer a verdade, nunca acreditei que este sítio existisse.
É normal. Isto é o teste final. A escolha já foi feita por si. Isto é apenas uma mera formalidade.
Pensei no massacre, no suicídio, no percurso feito até ali. Relembrei partes e momentos da minha vida votados, entretanto, ao esquecimento. Tomei a minha decisão. Puxei da carteira.
Quanto é o café?
É por conta da casa.
Guardei a carteira.
Já se decidiu?
Já sim.
E?
Tenho a família à minha espera.
Levantei-me e dirigi-me para a porta. A rua continuava igual, com a diferença de que agora conseguia ver outros como eu que haviam preferido aguentar mais um pouco antes de partirem de vez.
Vesti o casaco e comecei a caminhar, pensando no momento em que abrissem o caixão no cemitério. Estaria eu lá?