int / restaurante. Noite
Pedro, Cristina e Vera jantam num restaurante discreto. Cristina e Vera falam entre si. Pedro permanece alheio. Há uma pessoa ausente da mesa, presume-se que seja Fernando.
Cristina
… gostei daquele. Era assim justo. Ficava-te bem.
Vera
Não gostei da cor. Amarelo? Não, obrigado.
Fernando regressa à mesa.
Fernando
Ainda a falar de roupa? Não têm mais nada pra falar?
Cristina
Tens inveja do quê?
Fernando
Eu não tenho inveja de nada.
Vera
Porque é que tu e o Pedro não falam de futebol?
Pedro não responde.
Fernando
Ele parece que não tá cá.
(estala os dedos)
Ei!
O empregado aproxima-se para tomar os pedidos.
Vera
Arroz de marisco par todos.
Empregado
Quantas doses?
Fernando
Quatro. Somos quatro, não somos?
Empregado
São doses grandes, senhor.
Fernando
E nós somos esfomeados.
(referindo-se a Pedro)
Olhe lá pra ele, parece que há uma semana que não come.
Cristina
Isso é alguma indirecta aos meus cozinhados?
Empregado
(toma nota)
E para beber?
Fernando
(falando sozinho)
Primeiro foi o filho, agora é o marido. Qualquer dia…
Vera
Vinho branco. Traga um jarro.
Cristina
(para Fernando)
Já viste que ninguém te está a ouvir?
O empregado afasta-se.
Pedro olha para o seu lado esquerdo. Para a janela.
PDV DE PEDRO
O exterior explode com uma luz branca. A rua dá lugar ao interior dum quarto de hospital. Pedro vê uma pessoa acamada.
Cristina (F.C.)
Querido?
Pedro assusta-se, olha para o seu lado direito. Cristina olha para ele com ar preocupado.
Cristina (cont.)
Passa-se alguma coisa?
Pedro olha novamente para o seu lado esquerdo. A janela desapareceu. Pedro esfrega os olhos.
Pedro
Não…
Cristina
Tens a certeza? Pareces—
Pedro
Já disse que não se passa nada, foda-se!
(levanta-se)
Deixem-me em paz!
Pedro afasta-se. Cristina olha para Fernando e Vera.
Cristina vai para falar quando algo a retém.
Pedro (f.C.)
O que é que fazes aqui?
Cristina olha para o lado. Pedro está a falar. Sozinho.
Pdv de pedro
Pedro está a falar com a mulher do vestido negro.
Pedro (cont.)
Quem és tu? Porque é que me andas a seguir?
Mulher do vestido negro
Chamo-me Isabel e estou aqui para te avisar.
Pedro
Avisar-me do quê?
Isabel
Tu não pertences aqui.
Pedro
Cala-te!
Pedro dá um murro em Isabel mas só acerta no ar. Isabel desapareceu.
Pedro
Onde é que te meteste, puta?
Fernando aproxima-se de Pedro. Põe-lhe a mão no ombro.
Fernando
Calma…
Pedro vira-se e dá-lhe um murro no nariz.
Pedro
Não me toques!
Cristina e Vera aproximam-se. Os empregados também. Fazem uma roda à volta de Pedro.
Cristina
Calma…
Pdv de pedro
Tudo anda à roda. As vozes são distorcidas.
Pedro arregala os olhos, começa a esfumar-se. Ataque epiléptico. Perde os sentidos.
E as trevas entram em cena.