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Comecei a escrever este (espécie de) livro numa altura em que o sol brilhava (por estação e não no momento, pois era de noite) e em que muita gente está de férias. Corria então o ano de 2006, o primeiro ano em que o Governo português decidiu multar todos os banhistas que decidissem ir à água quando não está bandeira verde.
Pessoas maldosas vieram logo dizer que não era justo, que o Governo era uma cambada de chulos que se servia de tudo para sacar dinheiro ao Zé Povinho, etc. Cabe a mim dizer, em abono da verdade, que nada está mais longe da verdade. As intenções do Governo, além de honrosas e lógicas, são sempre cuidadosamente explicadas ao povo. Só não percebe quem não quer.
E eu não quero.
Eu não gosto de praia. Não gosto. Já gostei. Acontece que a partir do momento em que ir à praia deixou de ser um acto social de Verão e passou a ser uma obrigação social de Verão aquilo deixou de ter interesse para mim e passei a optar por outros destinos.
É engraçado agora olhar para o comportamento dos portugueses quando começa a época balnear. Tirando um ou outro, ninguém vai à praia fora da época balnear. O que só prova a minha ideia de que só vão por obrigação. É que as pessoas queixam-se que a gasolina aumenta, que o trânsito está um caos mas, assim que dizem “PODEM IR PARA A PRAIA”, lá vão eles todos contentes. E para quê?
Para passarem o tempo todo a dormir porque na noite anterior tiveram a arranjar as coisas para o dia seguinte e só dormiram três horas?
Depois é a água. Fria, salgada. É impossível alguém gostar daquilo. E a areia? Pequenina mas, sempre, incómoda. Nunca vos aconteceu, por exemplo, estarem a rebolar na areia e ficarem com areia nos pêlos do cu? Ou pior, na pila? Quem me conhece sabe que não costumo recorrer à genitália para causar humor, mas a minha intenção neste momento não é fazer rir, é alertar. Assusta-me a ideia de querer urinar e não poder por ter areia a entupir-me a passagem.
Porque é que as pessoas vão para a praia?
Será pelo sol? Pela água? Pelas mulheres? Pelos homens? Pela areia?! Para dormir? Pelo cancro da pele?
Experimentem colocar um jacuzzi e um vaso com areia na vossa sala de estar… Têm lá tudo. A água, que até podem beber se quiserem, embora não seja muito aconselhável beberem se tiverem dentro dela; a areia – e neste caso não há perigo da areia se entranhar em certas partes. Não têm problemas com o sol. Se estiverem sozinhos em casa podem olhar para todas as mulheres que apareçam na televisão sem que a vossa mulher vos diga alguma coisa. É só vantagens! Será que nunca ninguém pensou nisto antes?
Obviamente, perde-se o contacto humano. Aqueles momentos que ficam na memória. Do género estar deitado na toalha, acabadinho de sair da água e um estúpido miúdo passar a correr e atirar-nos areia para cima e depois ouvir a mãe com voz de gralha esganiçada a gritar “Zé Miguel, sai daí do pé do senhor!!!” e eu a pensar como gostaria de fazer uma operação para remover as cordas vocais àquela senhora.
Mas, voltando à questão dos banhistas e das multas, quero dizer que sou solidário com a causa deles. Se querem ir ao banho com bandeira vermelha, força. É com eles.
Tudo bem que a bandeira vermelha indica perigo, mas e daí? E será que indica mesmo perigo? As bandeiras são hasteadas pelos nadadores salvadores, certo? Imaginem que aparece um que troca as cores – não um confunda as cores, isso é um daltónico –, um que hasteie a bandeira vermelha a pensar que está a hastear a verde e vice-versa. Fica aqui a faltar uma quarta bandeira para ser confundida com a amarela. Ah! Espera! Há a azul. Bate tudo certo.
Imaginem: o gajo hasteia a bandeira verde (que para ele é vermelha), o pessoal vai todo para a água e ele fica radiante só de pensar nas multas que vai cobrar.
Notem que não faço qualquer ideia se é possível alguém trocar o verde pelo vermelho – colorística e não clubisticamente falando – ou não; há quem troque umas letras pelas outras; é possível que alguém troque as cores. Nem que seja a troco de dinheiro ou viagens.
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Outra coisa que caracteriza o Verão são os incêndios. E de há uns anos para cá, temos tido a nossa boa dose de incêndios, não é verdade? É bonito. Não gosto de ver as florestas a arder, nada disso. Mas gosto de regularidade, gosto de saber que todos os anos, naqueles meses quentes, o país vai arder. Todos nós sabemos que o país vai arder e o que é que fazemos?
Tomamos precauções. Preparamos pessoal altamente qualificado. Fornecemos equipamento especializado.
E nada disso resulta. Porquê?
Há dois ou três anos veio num jornal uma reportagem cujo título era “Governo proíbe que façam fogueiras nas florestas.”
E resultou. A partir de então os incendiários deixaram de poder pegar fogo. Porque passou a ser proibido. É claro que muitos dos incendiários que nós temos são analfabetos, ou seja, só os que sabem ler é que agiram em conformidade e passaram a outros crimes menos sensacionalistas como burlar o Estado em milhões de euros.
Fala-se muito do trabalho dos bombeiros, do sofrimento das pessoas que perderam tudo o que tinham. Não me consigo colocar na pele dessas pessoas. Pode parecer insensível dizer que não compartilho a sua dor mas, é verdade. Não compartilho. Posso sentir alguma empatia, pena, mas nada mais. Só quem perde é que sabe o valor daquilo que perdeu. Dizer que sinto algo que não sinto pode parecer bem mas, para mim, parece apenas hipocrisia.
Estou habituado a levar as coisas de ânimo leve. Faz parte da minha natureza, quando colocado numa situação adversa, explorar o lado positivo da questão. Infelizmente, aqui, não há um lado positivo. Terrenos são destruídos, espécies animais e vegetais são destruídas, a memória de gerações é consumida pelas chamas sem que nada se possa fazer.
E, no entanto, existe muito a fazer. Seja a nível de prevenção/vigília, seja a nível de sensibilização, seja a nível de mais apoio à investigação criminal, seja a nível de não aprovar construções para zonas onde existem florestas porque o mais certo é, mais tarde ou mais cedo, essas florestas desaparecerem devido a “causas naturais”.
Conforme vem na Legislação de Direito do Ambiente:
SECÇÃO IV
Fiscalização e contra-ordenações
ARTIGO 22.º
Contra-ordenações
1 – Constitui contra-ordenação a prática dos actos e actividades seguintes, quando interditos ou condicionados, nos termos do nº 6 do artigo 13.º ou nos termos do plano de ordenamento e respectivo regulamento previstos no artigo 14.º:
(…)
h) Colheita ou detenção de exemplares de quaisquer espécies vegetais ou animais sujeitas a medidas de protecção;
Esta alínea implica a chamada “limpeza do mato”. Soube de uma pessoa que foi multada por andar a apanhar galhos secos do chão. A Legislação proíbe quaisquer alterações a zonas protegidas, e isto inclui apanhar galhos secos do chão. É certo que os galhos acumulados depois são queimados e isso pode dar origem a incêndios mas, multar por limpar e depois afirmar que o fogo começou porque a floresta não era limpa devidamente parece-me bizarro. É quase a mesma coisa que alguém ir a uma loja de armas, comprar uma pistola e ser preso à saída da loja porque existe a possibilidade de vir a utilizar a arma para matar alguém.
~*~
Não pensem que vou falar da nova lei das armas agora. Acho isso tão estúpido que nem vou perder tempo a comentar. O Governo vai perseguir todos os possuidores de armas ilegais? Que tal começar pelos próprios agentes da autoridade? Acho que posso estar enganado, mas não houve há uns tempos atrás agentes duma força policial portuguesa envolvidos em tráfico de armas? E como é que isso ficou? Alguém se lembra? Alguém sabe?
Não.
Ouvimos as notícias que nos dão e pronto.
Mas isto é daquelas coisas que eles não falam. Eu sei porque me considero uma pessoa informada. Não sei TUDO, mas sei o bastante para não fazer má figura. A regra é: não é preciso saber, basta convencer os outros que sabemos.
Cresci com a televisão; de certo modo fui criado por ela. E as notícias de então eram tão diferentes das de hoje. O mundo era diferente, claro, mas não era notícia uma mulher cair do sexto andar e morrer. Eu li isto num jornal.
Uma mulher caiu do sexto andar e morreu.
Aposto que se tivesse sobrevivido, a notícia não teria tido o destaque que teve. Já se sabe, depois disto virão notícias como “AVIÃO DESPENHA-SE CONTRA SILO NUCLEAR. MORREM TODOS”.
Parece irreal. Donde é que vêm estas notícias? Eu já não acredito que as coisas aconteçam realmente como nos são relatadas. Eu olho para a situação no Médio Oriente, olho para a crise política por esse mundo fora, o aumento dos gases de efeito estufa, e penso que isto mais parece um filme e o fim está demasiado próximo para ser feliz. É surreal.
A informação é manipulada e distribuída de acordo com os grandes interesses. Quem pensa que os grandes industriais do jornalismo internacional são isentos e imparciais, é estúpido. Informação é poder, nunca se esqueçam disso.
É o tráfico de informações. Fala-se muito disso agora. Como é que funciona? Um gajo vai na rua e aparece um dealer:
“Ó bacano, tenho aqui o título do 24 Horas de amanhã. Queres comprar?”
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Eu não devia estar a falar do 24 Horas.
Porque eu sinto-me desiludido com o 24 Horas. Não pelas notícias. Não posso ficar desiludido com as notícias enquanto eles não começarem a publicá-las. O meu problema é o horário.
O 24 Horas não funciona durante vinte e quatro horas. Sempre pensei que funcionasse, mas não. Fazem uma pausa para dormir e comer. E desilude-me porque eu pensava que a má qualidade do jornal era devido à falta de descanso do pessoal. Assim tinha desculpa. Agora que eu sei que eles descansam – e comem, ainda por cima – vou deixar de roubar, perdão, comprar, o jornal.
Tenho todas as edições do 24 Horas em casa. Todas. E já não é a primeira, nem a segunda vez que eles me desiludem. Nem tão pouco a terceira.
Primeiro disseram que era um jornal diário. Lá diário, ele é. Agora jornal…
Segundo, são as edições especiais.
Com os jornais não acontece muito, é mais com as revistas. Fazem edições especiais em duas ocasiões: no número 100 e em cada aniversário. E o 24 Horas nunca fez isso. Tipo um número 100 com notícias plausíveis, informação interessante para a espécie humana e não apenas para o pessoal que compra o jornal. Nunca vi.
No outro dia estava num quiosque a folhear uma revista. Olhei para a periodicidade, vi que era anual e pensei: “Olha, nº1.”
Gosto sempre de arranjar o número 1. Nem que seja uma revista sobre o míldio ou fraldas descartáveis. O número 1 é um item único. Mas no caso das edições anuais a coisa é mais complicada do que parece.
Será que quando lançarem o nº 2 daqui a um ano vai ser uma edição especial?
É o primeiro aniversário, não é?
Aposto que daqui a um ano, se calhar a encontrar o nº 2 daquela revista, vai ser: edição especial! Os melhores artigos publicados no último ano. Ou seja, quem comprar o nº 1, pode ficar por aí. O nº 2 é o melhor do nº 1; o nº 3 é o melhor do nº 1 e do nº 2 e assim por diante. Só mudam duas coisas, a capa e o editorial que geralmente começa por “Mais um ano que passou”.
Eu nem percebo porque é que fazem revistas anualmente. O pessoal demora assim tanto tempo a ler? Eu leio um livro de 700 páginas em inglês numa semana. Quantas páginas é que essas revistas têm? Deve ser tipo Código da Vinci, deve ter segredos lá pelo meio. Na página 34, na segunda coluna está a palavra “açorda”; mais à frente, na página 42, vem a palavra “isótopo”. Qual a relação esotérica entre estas duas palavras?
Das duas, uma: ou aquilo é tão mau que demora um ano a ser vendido, ou é tão mau que o pessoal compra logo tudo e eles depois ficam um ano à espera a ver se o pessoal se esquece para tornar a vender mais.
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Queixamo-nos muito, amuamos, mas depois… desistimos, baixamos os braços. Não sei o que nos aconteceu. Nós não éramos assim. Mas podemos voltar a ser bons. Tudo o que precisamos é… um exemplo a seguir.
Há um grupo – eu só descobri isto há pouco tempo, vocês se calhar já sabem – que é um exemplo de determinação e persistência que todos nós, todos nós!, deveríamos seguir. Eles são muito populares no Japão. De quem é que eu estou a falar?
Dos grupos de suicídio colectivo. São um verdadeiro exemplo a seguir. Vejam bem.
Sempre que um grupo de suicídio colectivo se reúne o mais certo é acabarem todos mortos. Num clube de características mais, digamos “normais”, isso seria um motivo suficiente para acabar. Eles não. Enquanto os outros acabam, eles continuam.
Na semana seguinte lá se reúne um novo grupo de pessoas, sempre prontas a morrer por causas nobres como o fim dos D’Zert ou a canonização do José Cid. É de louvar tanta devoção.
Mesmo quando se tratam de objectivos que os outros considerariam impossíveis eles não desistem. Porque…
“A esperança é sempre a última a morrer.”
Há quem diga isso e fique todo contente. Não percebo porquê. “Eu, pessoalmente”, acho… estúpido. Não sei.
Se a esperança morre em último lugar, isso quer dizer que eu vou morrer primeiro. Será que sou eu o único a reparar nisso? É só isso que a frase diz. Mais nada.
Eu estou mal. Por acaso não estou. Mas vamos supor que sim. E alguém me diz:
“Não te preocupes. A esperança é a última a morrer.”
Em que é isso me ajuda? Eu vou morrer primeiro. Bela merda de amigo!
A frase só resulta se a pessoa que a ouve, se chamar Esperança. Caso contrário…