I
VIVER
CAPITULO 1 – COMO NUMA TEIA
“Mas a morada da aranha
é a mais frágil das moradas.”
Alcorão 29,41
“Constrói a sua casa como a aranha
como a choupana levantada pelo guarda.
Deita-se rico mas será pela última vez;
Ao abrir os olhos já deixou de existir.”
Job, 27, 18/19
Não sei porque motivo estou aqui. Não sou pessoa de jurar, mas neste momento sou bem capaz disso: juro que não sei.
O espaço à minha volta é pequeno, sujo, degradado. Os estofos vermelhos e esburacados são desconfortáveis. Muito, mas mesmo muito desconfortáveis. O chão está sujo e cheio de lixo. Matérias viscosas que me prendem. As janelas, praticamente nenhuma delas tem vidro. Estou habituado a melhores condições. Não foi por isto que paguei.
Terei mesmo pago? pergunto-me.
Estou sozinho na carruagem. Nenhum passageiro entrou, nenhum passageiro saiu. Apenas eu. E uma pequena aranha a tecer a sua teia junto da única janela ainda com vidro intacto. Atento na fragilidade da sua obra. Um esforço admirável, susceptível de ser desfeito por uma simples lufada de vento.
Desconheço se existe algum maquinista ou se a locomotiva é movida apenas pela força do meu pensamento ou, porventura, atraída por alguma espécie de íman.
Espreito pela janela e vejo uma paisagem deserta. Campos carbonizados pelas chamas. O céu escuro ainda com resquícios de fumo. O sol a ser engolido pela lua num estranho e inesperado eclipse.
O espaço à minha volta começa a desaparecer. A carruagem deixa de existir como se fosse apenas uma miragem. O sol, bem como o resto da paisagem, deixa também de existir. Fica apenas o vazio.
A sensação de deslocação através do espaço continua lá. O objectivo, seja ele qual for, também.
à distância vejo algo a aproximar-se. Outro viajante a viajar em sentido oposto. Na minha direcção. Será alguém a partir de outro destino? Ou talvez eu a regressar de um sítio ao qual ainda não cheguei?
Sinto-me a parar. Não apenas o espaço à minha volta, mas também eu. Sinto-me, melhor dizendo, estou paralisado. Por momentos penso que o objectivo desapareceu. Mas depois vejo que não. Continua lá. Seja lá ele qual for.
Nas trevas surge uma sequência de luzes.
vermelho.
Sinto a paralisia a passar.
amarelo.
Consigo agora mexer os dedos.
verde.
sinal, permissão, para avançar. Desta vez, pelos meus próprios pés. Para quê? Não sei.
Avanço, apesar de tudo. Apesar de uma decisão aparentemente simples poder ser a derradeira, avanço. É assim: quem não arrisca, não petisca. O grande problema, ou pelo menos parte dele, se é que tal existe, é que eu não sei porquê ou para quê eu arrisco. Mas arrisco. E é isso que interessa.
Na escuridão, o vazio é universal. No imenso silêncio sepulcral oiço o meu coração. Rápido e pesado. Como um martelo pneumático nas mãos de um trabalhador do leste europeu em hora de ponta.
A luz surge. As primeiras imagens nítidas também. Nada que eu compreenda. Nada que eu queira compreender. Ou encarar.
Penso em fugir.
Mas é tarde demais para reagir. Tarde demais para pensar.
O medo na forma de líquido amargo verte do céu, como gotas de chuva ácida. Temo o que vejo. E mais ainda o que não vejo. O negro. O vazio.
Ao fundo, uma figura de branco a encarar-me. A sua face oculta oscilando na distância. Cada vez mais perto, cada vez mais longe. Sempre imóvel. Uma dor indescritível assola-me o corpo. Não sei o que a provoca. Não sei como pará-la. Não sei se a quero parar.
O chão desaparece. Talvez nunca tenha existido, talvez seja a gravidade a perder o seu efeito. Sinto-me a cair num abismo sem fundo.
E depois, vindo não se sabe bem donde, não se sabe bem como, um grito a interromper o estigma do silêncio.
O meu grito. O meu estigma. O meu silêncio.
É então que me apercebo que não sei o que aconteceu à aranha.
Acordo só e desorientado como todas as noites de há uma semana para cá. Olho para o despertador — quase quatro da manhã. Dói-me a cabeça. Não muito, só um pouco. De qualquer das formas, dói, e é isso que interessa. Não a dor, mas o facto de saber que ela existe, que está lá a marcar presença.
Devo estar a ficar com febre. É o que dá andar à chuva sem chapéu em pleno Inverno. Inverno frio como há muito não se fazia sentir.
Mais um pesadelo, mais uma noite sem dormir. Sinto os pensamentos abandonados horas antes a regressarem ao activo. O meu sistema operativo pessoal, concluída a fase de arranque, encontra-se agora pronto para as habituais tarefas e consequentes mensagens de erro que, na minha vida, são uma constante. É pena é quando as coisas brecam não ser possível fazer um alt+ctrl+del. Um simples alt+ctrl+del. Só isso. Um reset mental sempre que as coisas não corressem bem. Quase sempre, portanto.
Cada noite é mais difícil que a anterior. É sempre assim, o que é mau tarde ou nunca melhora. As imagens surgem com o cair das pálpebras e instauram o medo. Não sei porque razão o temo. O sonho, digo. Será mesmo necessária uma razão para se temer o desconhecido? Nunca consegui perceber o sonho. Ou pesadelo. Tenho medo exactamente por isso mesmo, por não saber o que significa.
Desvio o lençol e o cobertor e saio da cama. Movimentos um tanto quanto ainda lentos. Chinelos, robe, e lá vou eu a caminho da cozinha, com um andar trôpego, para mais algumas chávenas de café. Talvez algumas torradas ou bolachas também. Isto se a fome aparecer até lá.
Na cozinha preparo o café (penso que deve dar para umas três chávenas, mais ou menos) e dirijo-me de imediato para a sala de estar. A fome acabou por não aparecer mas, de qualquer modo, levo também um pacote de bolachas para acompanhar. Não sou guloso, mas sei apreciar as coisas.
Da janela aberta do meu décimo segundo andar, fortaleza moderna que me mantém enclausurado do caos urbano, vejo a chuva a cair torrencialmente e a ensopar a carpete. Fecho a janela, mas deixo a persiana entreaberta. As gotas batem na caixa metálica da persiana. Às vezes penso que deveria mudar de apartamento. De preferência, para um que tenha a caixa da persiana no interior. Aquele ruído irrita. Parece que estou numa casa cercada e as gotas são como balas que me tentam acertar. É uma comparação estúpida, eu sei. É o que dá dormir pouco. Ficamos estúpidos. Estúpidos e irritantes.
Apesar de tudo, a chuva tem as suas vantagens. É uma noite boa para se ficar em casa. Mas não sozinho. O que vale é que hoje é sexta-feira e à sexta-feira nunca durmo sozinho. Não quer dizer que vá dormir, normalmente não é isso que acontece. Mas, quer eu durma quer não, o que é certo é que não o farei sozinho, e é isso que interessa.
Sento-me no sofá e acendo a televisão. Zapping rápido apenas por mera rotina. A esta hora já sei que só dá merda — tv-shops, telenovelas venezuelanas e programas que não interessariam nem ao menino Jesus se ele ainda fosse vivo. Decido aproveitar, feito o zapping, para ver um filme. Pouso a chávena no chão e caminho até à prateleira dos audiovisuais. Também chamo à prateleira onde ponho os livros prateleira dos livros.
Da minha modesta colecção de DVDs escolho um dos vários filmes que ainda não vi. Comprei-o por uma bagatela. É um vício que eu tenho desde há muito tempo: comprar só porque é barato e depois deixar ficar na prateleira a ganhar pó. Isto é válido, não apenas para os DVDs, mas também para os CDs e livros. Sou um consumidor teórico por definição; ou melhor, um consumidor intencional.
Coloco o DVD seleccionado no leitor. Sento-me no sofá, dou mais um golo no café, abro o pacote das bolachas e ponho uma metade na boca. Recheio de chocolate. Como não gosto de baunilha e sou alérgico a morango, tem de ser de chocolate. Pego no comando do leitor e acedo aos extras. Gosto de ver primeiro os extras antes de ver o filme. Este parece estar bem recheado: vários previews, um trailer, comentários do realizador, do produtor, dos protagonistas, making-off, etc., etc., etc.
Acabados os extras, passo para o filme em si. Legendas em sueco. Sim, porque não?
O filme começa. Passados dois minutos tiro as legendas. O filme está bem construído, bons diálogos, bom ritmo. Bom filme. Penso que já o deveria ter visto há mais tempo. Se calhar até já vi e não me lembro. Acontece. Não é sempre, mas acontece. Dizem que a memória humana retém tudo. O difícil é aceder à informação quando queremos.
Durante as cerca de duas horas que se seguem deixo o meu subconsciente absorver as imagens e sons emitidos. Mais tarde, eu sei que ele encarregar-se-á de pegar nessa informação, no seu significado, e convertê-lo em algo completamente diferente. Memórias dispersas de um tempo breve serão transformadas em sequências de pensamentos que darão origem a pesadelos. É assim que começa sempre.
Ocasionalmente, os olhos fecham-se, por meros segundos apenas. Nada que afecte a percepção do filme. Aproveito esses momentos para pôr o filme em pausa e ir à cozinha atestar a chávena. Três chávenas, medida certa.
Tal como eu havia previsto.
As bolachas duram a primeira meia hora. Trago também outro pacote para a meia hora seguinte. Aos setenta minutos de filme, faço uma paragem para ir à casa de banho. Muito chocolate faz sempre o seu efeito.
O filme termina em grande apoteose. Olho para o telemóvel em cima da mesa. A bateria já não está a piscar. Seis em ponto. Mais meia hora e está na hora de me começar a despachar.
Por mais que pense que este modo de vida é ridículo, por mais que saiba, continuo a fazer o mesmo. Noite após noite. Dia após dia. Porquê? Não é à falta de interesses amorosos. Tenho acção suficiente. A nível físico, quero dizer. Mas, falta-me o resto. Algo estável, não apenas físico. Algo mais que isso. Acima de tudo, alguém que me faça companhia.
No entanto, apesar de pensar assim, quantas não foram as vezes que eu, perante a oportunidade de ter tudo isso e mais, virei costas e afastei-me de um futuro promissor. Porquê? Talvez seja estúpido. Talvez tenha muita garganta mas, na hora da grande verdade, eu me afaste. Talvez aprecie muito a minha liberdade para me deixar prender dessa e de qualquer forma. Talvez sim, talvez não. Não sei.
De qualquer modo, ainda é cedo para pensar nisso. Ainda só tenho trinta e um anos. Ou sete, para ser mais exacto. Não, não sou maluco. Faço parte de uma minoria, não de malucos, que apenas comemora o aniversário de quatro em quatro anos. Se bem que no meu caso, nunca há assim muito para comemorar.
É verdade que já não sou assim tão novo quanto isso, mas tenho um espírito jovem. Penso que tenho. Além da idade, digo. Às tantas, o que eu entendo como sendo a minha irreverência inata, pode ser apenas um claro sinónimo de imaturidade ou um reflexo da minha verdadeira idade.
Não tenho medo de assumir um compromisso. Sou bem capaz disso. Simplesmente, por enquanto, ainda não encontrei ninguém além de ocasionais companheiras de cama de fim-de-semana.
Encerro a divagação e levanto-me para desligar o leitor e arrumar o DVD no sítio devido. Sento-me novamente no sofá e mudo para outro canal. A esta hora já deve estar a dar qualquer coisa de jeito. Faltam pouco mais de vinte e cinco minutos até eu me ir vestir e começar a despachar. Olho pela janela. A chuva continua a cair, parece que com ainda mais força. O vento também parece ter aumentado.
Na televisão consigo (finalmente!) encontrar um canal que está a transmitir o primeiro serviço noticioso. Durante quinze minutos tento-me inteirar da actualidade. Entre outras coisas, fico a saber que o desemprego continua a aumentar; na notícia seguinte, como contraposto à notícia anterior, um ministro, ou o primeiro—um deles—anuncia que a retoma está iminente. É interessante ver como as notícias se complementam. Sinto-me fascinado por este mundo e pela sua duplicidade intrínseca. Acho que, mesmo que quisessem ou pudessem, eles nunca iriam acabar com a dubiedade.
Passados os tais quinze minutos, levanto-me do sofá, levo a chávena para a cozinha e sigo para o quarto. Os pacotes já os tinha levado para deitar no cesto do lixo na cozinha, quando fora à casa de banho. O dia vai ser frio e chuvoso, disseram eles na televisão. Grande novidade.
Tenho ainda dez minutos antes que o despertador da aparelhagem ligue automaticamente numa rádio previamente seleccionada e comece a tocar. Por algum motivo, que eu próprio não consigo explicar, continuo a pô-lo para tocar sem necessidade alguma, visto que pouco ou nada durmo. Normalmente escolho uma rádio que passe música de dança. Detesto música de dança. Sempre detestei. Techno, house, transe, ponho tudo no mesmo caixote. Gostos não se discutem, tudo bem. A falta dele, também não. Cada um é como é e acabou. É por isso que escolho sempre esse tipo de sonoridade para acordar.
Em sonhos, chego a imaginar-me a entrar numa discoteca e a disparar vários tiros de bazuca na aparelhagem. Por enquanto, é óbvio que não posso fazer isso, talvez nunca chegue a fazê-lo, mas em sonhos. . .Curiosamente, tanto o acto de disparar a bazuca nos sonhos bem como o acto de desligar a aparelhagem no mundo real assim que ela começa a tocar, são actos quase síncronos. Entendo isso como a minha primeira boa acção do dia. E muitas vezes chega a ser a única.
Enquanto escolho a roupa, o despertador começa a tocar. Rapidamente desligo a aparelhagem. Cinco segundos de audição. Acho que era uma espanhola a cantar. (Mira que es grande!; o meu espanhol resume-se a isto e pouco mais. Mentira, até percebo bem espanhol, mas recuso-me a falá-lo com eles. Quem vem cá é que tem de aprender a língua e não o contrário.) Não sei se a fulana era nativa ou apenas cantava em espanhol. Não cheguei a ouvir o suficiente para saber. A maior parte dos artistas musicais canta em inglês. Aquela resolveu cantar em espanhol. Talvez para ser original. Talvez não saiba inglês. Não me perguntem porquê. Não faço a mais pequena ideia.
Enquanto me visto, tento pôr as ideias em ordem. Sexta-feira é sempre dia de reuniões e não apenas de rambóia, como alguns costumam dizer.
Há mais de uma semana que estou nesta vida de dormir pouco e mal. Talvez não fosse má ideia ir a um médico. Talvez seja algum trauma de infância recalcado a manifestar-se na vida adulta após anos e anos de recusa em enfrentar um problema. É sempre isso. Ou é Sentia-se posto de parte quando era criança? ou então O que é que sente em relação a isso?. Fazem sempre as mesmas perguntas. O verdadeiro grande problema é que detesto psicólogos e psiquiatras e essa gentalha toda. Queimam miolos, exploram miolos, a troco de pequenas fortunas durante cinquenta minutos semanais e depois dizem: A solução tem de partir de si. Eu só estou aqui para orientá-lo. Pois sim. Estão lá é para se ‘orientarem’ à custa dos otários que caem ali de pára-quedas, isso é que estão.
Escolho um fato preto. Hoje não estou de bom humor. Deve ser por não ter dormido nada de jeito. E também porque só tenho fatos pretos. De qualquer modo, estou de mau humor e é isso que interessa.
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Ao mesmo tempo, a uma hora e meia de transportes públicos de distância (tempo calculado sem atrasos), o despertador de Sofia começa a tocar. Sofia—vinte e oito anos, licenciada em Artes, pintora por paixão, em busca de um emprego que consiga suportar essa mesma paixão e que, ao mesmo tempo, ponha pão em cima da mesa— deixa-se ficar mais dois minutos deitada antes de se levantar para desligar o despertador colocado estrategicamente na secretária a um metro e meio da cama. É uma estratégia que a obriga a levantar-se para o desligar e que resulta, já que a sua tentativa de resistência para ignorar o som irritante do despertador termina sempre da mesma forma: Sofia levanta-se.
A falta de horários para cumprir não é razão para dormir até tarde, costuma dizer. É uma frase sua. Entre outras. Há que despachar e ir à luta. Procurar trabalho remunerado que lhe dê tempo para as suas coisas e, se possível, alguém interessado nas suas obras artísticas. Às vezes fica a pensar se não teria sido boa ideia ter continuado os estudos. Uma pós-graduação, quem sabe. No mundo artístico, não basta ser bom, é preciso ter nome. Na maioria dos casos, é preciso mais nome do que propriamente talento porque, com nome, pode-se fazer a maior merda que há de haver sempre alguém para elogiar. Quando não se percebe a obra de um artista grande, a culpa não é do artista é do apreciador, da sua falta de cultura e perspicácia em relação ao espírito humano. Sofia sabe disso, mas recusa-se a singrar artisticamente através de outra coisa que não seja a sua própria capacidade artística.
Esfrega os olhos ainda pesados, mais fechados que abertos, após a longa noite vazia de inspiração e cheia de frustração. Num gesto quase atlético da sua parte, consegue calçar os chinelos e vestir o robe sem soltar um bocejo com desejos de liberdade.
Hoje vai ser de água fria, pensa, senão não acordo.
Sofia sai do quarto em direcção à casa-de-banho para o banho matinal. Em dias normais teria tempo para encher a banheira e deixar-se ficar a repousar por meia hora, talvez mais, hoje não. Não que não tenha tempo, porque tem, mas porque precisa de aproveitar esse tempo para fazer aquilo que não conseguira na noite anterior — preparar qualquer coisa para apresentar ao senhor Rio, o responsável da galeria. Foi uma oportunidade que surgiu quase por acaso e que ela não pode desperdiçar. A possibilidade de expor as suas obras, ainda que num sítio pouco conhecido, não deve ser de modo algum descurada.
Sofia abre a torneira e deixa a água correr enquanto se despe. Apesar da sua convicção inicial, acaba por regular a água para uma temperatura morna. Fria o suficiente para despertar, quente o suficiente para relaxar.
Sofia entra na banheira e puxa a cortina. A água cai do chuveiro, forte e poderosa, cobrindo com a sua presença húmida o corpo de Sofia. O vapor que sai do chuveiro embacia o espelho pendurado por cima do lavatório e todos os outros vidros presentes na casa de banho. As imagens, outrora reflectidas, são-lhe agora negadas. Talvez por algum tipo de terror, infundado ou talvez não. Seja como for, o que importa reter é se a água está ou não a uma temperatura ideal; não para o seu contacto, mas para o seu rápido despertar. Está. E é isso que interessa. Mais nada.
Ou pouco mais nada.
Com uma certa relutância, Sofia pega no sabonete e começa a passá-lo pelo corpo. De início, apetece-lhe apenas deixar-se estar debaixo daquela forte cascata e ficar ali durante tempos indefinidos, na esperança vã de que a água a purifique, arraste as suas memórias através do ralo, dos canos, dos esgotos, até o rio mais próximo onde estas se dissiparão.
Se esta fosse uma cidade como deve ser, talvez elas chegassem a um Centro de Tratamento de Águas Residuais. Infelizmente, esta não é uma cidade como deve ser. Esta é a cidade onde ela vive. Apenas isso. Apenas o lugar onde ela se mantém até surgir uma oportunidade para ir para um sítio melhor. Até lá tem de trabalhar para que esse objectivo seja atingido.
As manchas de sujidade no tecto, vestígios evidentes, quase palpáveis, de humidade acumulada parecem ganhar mais contraste dia após dia. E, neste caso, a aparência é praticamente, para não dizer de todo, a realidade. Um maníaco de limpeza diria que aquele relevo no tecto está a crescer de forma imensurável. “É preciso limpar aquilo e pintar de novo o tecto.” Para Sofia, aquela sujidade, apesar de bastante evidente quando vista de baixo, está longe, muito longe até, de parecer estalactites. Contudo, talvez pinte o tecto. No Verão. Agora não, agora é Inverno. Inverno é tempo de. . .é tempo de quê? Uma coisa é certa. Não é tempo de pintar o tecto. Isso vai ter de esperar.
O telefone toca no preciso momento em que Sofia está a acabar de tirar o amaciador do cabelo. O grande mal dos amaciadores, apesar das qualidades existem sempre defeitos, é que, por mais que se enxagúe o cabelo, parece que fica sempre lá qualquer coisa. É como uma espécie de frustração não ultrapassada. Fica sempre um pequeno resquício, um mínimo de recordação que seja, quase imperceptível, mas o suficiente para nos condicionar. Mesmo que não reparemos nisso. Ou por outra, porventura mais certa e mais verdadeira: mesmo que não liguemos nenhuma a isso.
Sofia fecha as duas torneiras e sai da banheira, após pegar na toalha pendurada no cabide perto do lavatório e enrolá-la à volta da cabeça para que o cabelo não pingue o chão. O resto do corpo iria a descoberto. Nu, por assim dizer. Paciência, ninguém estaria a vê-la. E, mesmo que estivessem, não seria esta a primeira vez que a veriam nua. Nem a última. Além disso, era uma simples chamada telefónica, não uma vídeo-conferência.
O telefone continua a tocar. Quem quer que esteja do outro lado parece estar com pressa. Ou talvez não. Se estivesse com pressa não estaria tanto tempo à espera. A não ser que goste de esperar.
Tantas hipóteses. Qual delas válida?
A mensagem pré-gravada começa a tocar. Um segundo ou dois depois, Sofia atende.
“Sim.”
“Sofia? É o Sérgio. Apanhei-te numa má altura?”
Hum. . .O que responder? A verdade? Não, estava só a tomar banho. Sarcástico q.b. sem dúvida alguma, mas é melhor não. É preferível guardar o sarcasmo para mais tarde. Até porque ele não precisa de saber a verdade.
“Hã. . .Não.”
“Óptimo. Tou-te a ligar para avisar do seguinte: o senhor Rio ligou-me. É para avisar que a reunião vai ter de ser antecipada para o meio-dia.”
“Meio-dia?! Aquilo era para ser às três!”
“Eu sei. Perguntei-lhe porquê e ele disse-me que surgiu um imprevisto.”
“Deve ter sido.”
“Portanto, ou é ao meio-dia hoje, ou então só para daqui a duas semanas.”
“Duas semanas?!”
“Isto se não surgir nada entretanto.”
“Kutabacchimae. . .”
Sérgio ri-se.
“Não faço ideia do que é que disseste, mas seja o que for, não deve ter sido coisa boa.”
“Vê lá que ainda sobra pra ti.”
“Calminha aí! Não mates o mensageiro.”
Sofia ri-se antes de continuar.
“Eu sei que a culpa não é tua Sérgio. Mas tu sabes muito bem que eu não gosto de mudar os meus planos à última da hora. Ainda por cima, por causa das manias de um gajo estúpido como ele.”
“Sofia, ele é a tua grande hipótese de fazeres uma exposição. Ele foi o primeiro, e único até agora, a mostrar algum interesse no teu trabalho. Tem cuidado com o que fazes.”
Sofia suspira antes de responder. “Não é por isso que ele deixa de ser estúpido. Se não tivesse nada marcado ainda era como o outro.”
Sérgio tenta aproveitar para meter um comentário, supostamente cómico. “Qual outro?”
Porém, a reacção de Sofia não foi a desejada. “Não comeces, tá?”
“Sem brincadeiras. Tinhas alguma coisa combinada?”
“Não, nem por isso.”
“Então, qual é o problema?”
“Não gosto, prontos.”
“Não é prontos, é pronto.”
“Tás armado em sarcástico, é?”
“Não, é ironia. Um sarcasmo seria mais exagerado.”
“Bom, tenho de desligar. Lamento muito.”
“Já somos dois.”
Pausa. Sofia parece hesitar antes de perguntar.
“Jantas hoje?”
“Hoje e todos os dias. Tu também devias fazê-lo. Havias de gostar.”
“Não é isso. Queres vir cá?”
“Não sei se posso. Eu depois ligo-te a dar uma resposta. Às. . .cinco, pode ser?”
“Tá. Liga-me para o telemóvel.”
“Vá, até logo.”
A chamada é encerrada em simultâneo.
Terminada a chamada, Sofia regressa à casa de banho para pendurar a toalha no cabide atrás da porta. O cabelo, já seco, precisa agora de respirar. Assim como ela.
Sente então a necessidade, quase premente, de ver o seu reflexo. O espelho ainda embaciado, apesar do tempo que já passou, faz aquele som irritante, quase estridente, tipo um guincho, quando Sofia passa lá com a mão, devagar, para o limpar. Na verdade, não é o espelho que faz o som e sim a acção de passar lá com a mão para remover o embaciado. De qualquer modo, o som é irritante e é isso que interessa.
Uma vez limpa a superfície reflectora, apesar das óbvias dedadas, Sofia olha para o seu rosto em busca de algumas imperfeições faciais, tipo borbulhas, pontos negros, etc. Gesto típico matinal para muitas pessoas. Nisso ela não era exclusiva. Noutras coisas, sim. Nisto, não.
A sua face ambígua, desde há algum tempo para cá que divide opiniões. Para muitos é uma cara normal, banal até, passível de ser encontrada em qualquer lado. Por outro lado, as semelhanças com uma jovem apresentadora televisiva eram mais que muitas. O nome do programa em questão não interessa para o caso, mas a semelhança é notória, segundo lhe dizem quando se apercebem que ela não é quem eles pensam que é, e é isso que interessa.
Eram várias as vezes que pessoas na rua, movidas por aquele estranho hábito popular de aproximarem-se muito sorrateiramente por trás e perguntarem, quase em sussurro, num gesto capaz de provocar um ataque cardíaco a um interpelado desprevenido. “A menina não apresenta aquele programa que dá à tarde na televisão?”
Às vezes, Sofia responde não. Outras vezes, cada vez mais frequentes nos últimos tempos, deixa-se levar e entra no jogo. “Sim, sou eu.”
Não é que ela goste de se aproveitar do que não é seu (que até é, neste caso) mas, essa semelhança facial já lhe permitiu entrar em sítios mais finos onde habitualmente seria convidada a ficar à porta. Seja lá que tipo de convite isso for. . .A culpa não era sua, era de quem não sabia distinguir as diferenças entre ela e a sua sósia. Diferenças essas mais que óbvias no seu e no entender de qualquer bom observador.
Por outro lado, seria também possível, embora pouco provável, que pessoas do círculo de Sofia confundissem a jovem apresentadora com ela (Sofia). Talvez a jovem apresentadora decidisse aproveitar essa confusão para fugir um pouco do mundo da fama e embrenhar-se no anonimato; deixar de ser uma cara reconhecida por milhares e ser apenas uma figura incógnita, um rosto apagado no meio de milhões de rostos apagados. Seria pouco provável que tal acontecesse, mas! se acontecesse, decerto que ela aproveitaria. Talvez. De qualquer forma, seria possível que isso acontecesse e é isso que interessa.
Verificado que estava o rosto, Sofia sai da casa de banho e segue para o seu quarto.