UM CAPPUCCINO VERMELHO (excerto)

By joelgomes

CAPÍTULO 1

Ricardo era um viciado em cafeína. Desde aquele dia em que descobrira o café pela primeira vez, vai para lá mais de vinte anos, ficou, pode-se dizer, enfeitiçado por aquele sabor único.

Durante anos estudara o café de todas as maneiras possíveis. Do sabor às origens, aprendendo todas as formas de confecção possíveis e imaginárias. Sabia que o café tinha origens árabes, que durante a Guerra Civil Americana os soldados transportavam café para os campos de batalha como alimento de primeira necessidade e que, como produto de importância global, era ultrapassado apenas pelo petróleo. Do mesmo modo, sabia que as suas influências culturais e sociais eram também significativas. A título de exemplo, Bach compôs uma cantata dedicada ao café e em Itália o café é considerado tão essencial à vida diária que é o próprio governo a estipular o preço de venda. De facto, nos últimos três séculos, noventa por cento da população ocidental mudou do chá para o café. É verdade que o chá também tem cafeína, mas para Ricardo o sabor do café é único.

A influência do café na vida de Ricardo era grande porém, ele mantinha esse gosto para si. Não se dava ao luxo de qualquer extravagância. Tinha bom gosto suficiente para ter cuidado com a sua imagem e não aparentar o ridículo. Gostava do café como bebida, digestiva, refrescante, aconchegante, estimulante, o que fosse. Aprendera que, fora a temperatura, as outras faculdades do café só funcionavam se ele deixasse. Talvez não fosse só ele. Talvez todas as pessoas tivessem essa capacidade de filtragem dentro delas. Ou talvez o seu organismo estivesse já tão habituado ao café que a única coisa que ainda conseguia registar era o sabor e a temperatura. Conseguia beber mais de sete cafés seguidos sem que o factor hipertensão tivesse qualquer efeito nele, consciente ou não. Conseguia, mas não o fazia. Não valia a pena fazê-lo. Para muitas pessoas beber café é um acto mecânico. Junta-as em grandes aglomerados, mas não as acalma, apenas fá-las ficarem nervosas e apáticas. Até que o organismo habitua-se tanto à substância que já não reage e o café torna-se um vício para a mente. Ricardo observara este padrão comportamental desde que iniciara a sua jornada no mundo da cafeína.

De todos os estabelecimentos que visitara desde que iniciara essa sua jornada, este era sem dúvida o seu preferido. Um local longe da sua casa, é certo, mas que tratava o café como Ricardo achava que este o merecia: com respeito e dedicação. Esta casa possuía uma grande variedade de cafés, sabores e combinações e de todas essas combinações a sua preferida sempre fora o cappuccino.

Existiam várias maneiras de preparar o cappuccino, segundo o que ele aprendera. Há quem junte chocolate, há quem prefira só leite. Natas, leia-se. A temperatura é outro factor a ter em consideração. Há quem prefira o leite frio, quase gelado, há quem o prefira bem quente. Ricardo já experimentara de todas as maneiras possíveis, mas esta era a sua preferida – o café bem quente com o leite frio. (O leite quente dava-lhe sono.) Era a combinação perfeita. As propriedades estimulantes do café aliadas às propriedades calcificantes do leite. Gostava de usar um pau de canela para mexer o açúcar. Era uma pequena tendência da moda à qual ele depressa aderira. A cada golo que tomava, sentia os seus ossos a estalarem de vigor. Era tudo o que precisava para o seu pequeno-almoço.

Ricardo era dono de um espírito crítico em relação ao mundo que o rodeava. Talvez por esse motivo tivesse duas profissões tão diametralmente opostas, mas que encaixavam tão bem com o seu desejo de mudar o mundo.

Era escritor. Assumia-se como sendo um. Embora as suas obras, as que chegavam a ser publicadas, fossem medíocres, cheias de violência, sexo e morte, tudo isto condensado (e mal) numa linha narrativa fraca, muitas vezes inexistente. Contudo, a falta de sucesso não o fazia recuar nos seus esforços. Gostava de mostrar novos mundos às pessoas. Afastá-las da realidade. O contraponto a esta função de mostrar novos mundos às pessoas não era bem o oposto, mas sim um complemento pois, sendo um assassino profissional, não só mostrava novos mundos às pessoas como também as enviava para lá.

E, apesar deste seu gosto bem refinado, não se sentia um homem limitado a um mundo apenas. Do seu lugar criteriosamente escolhido podia observar toda a fauna que proliferava naquele jardim zoológico humano. Porém, não via nada. Nada. Há dez anos que frequentava aquele café e não conhecia ninguém. Conhecia algumas caras, umas novas, outras velhas, umas mais antigas que ele, ao ponto de já quase fazerem parte da mobília, mas não sabia os nomes associados às caras. Não sabia nem o queria saber.  Sentia que o que fazia era uma espécie de serviço público. O mundo está num estado lastimoso, pensava ele. Não se pode confiar em ninguém. Não se pode andar na rua à noite sem se ser assaltado. Os preços sobem sem parar por causa da inflação e os salários não conseguem acompanhar esse ritmo. Era por isso que, do seu ponto de vista matar pessoas era uma forma de levá-las para um mundo melhor. Sim, era o desconhecido. Mas, Ricardo acreditava que o desconhecido não devia ser pior que o mundo em que viviam.

Acima de tudo, tinha orgulho no que fazia: não era um assassino profissional como aqueles que aparecem nos filmes, todos galantes e charmosos, que matam mais com o charme do que com as balas. O seu sucesso com as mulheres era relativo ao ponto de, por vezes, ser quase nulo, mas isso não o incomodava. Subconscientemente, talvez fosse também por isso que decidira ser um assassino profissional. Ou talvez não conseguisse iniciar uma relação por ser um assassino profissional. Seja de que maneira for, o que é certo é que no seu ramo alternativo é muito perigoso haver um relacionamento afectivo com alguém. Para qualquer uma das partes. É um verdadeiro paradoxo que ele não pretendia decifrar.

Porém, convém não entrarmos em falsas suposições. Ricardo era um assassino profissional, é certo, mas não matava qualquer um. As suas vítimas eram todas indicadas numa lista. Nunca matara ninguém que não tivesse sido contratado para o fazer. Aliás, o seu profissionalismo, o seu código de honra, como ele gostava de chamar, chegava ao ridículo de eliminar os alvos apenas pela ordem indicada na lista. Era o seu modus operandi, tanto como escritor como assassino profissional. Cumpria os seus objectivos a tempo e horas.

Neste momento, encontrava-se numa fase complicada da sua vida. Contrariamente a todas as expectativas, o seu último livro estava a ter uma aceitação razoável e atingira o nível de vendas necessário para que o seu editor lhe telefonasse a pedir mais um livro para dali a seis meses. Fácil. Eram as boas notícias do dia.

Fácil, se tivesse apenas o livro para fazer. Isto porque, imediatamente após falar com o seu editor (ou talvez tivesse sido antes), o seu outro agente telefonara-lhe avisando-o da chegada de uma carta com uma nova lista de trabalho. Três meses no máximo. Ou seja, após um longo período de tempo regiamente dedicado ao cultivo da pasmaceira eis que surge isto. As boas notícias trazem sempre as más em anexo, como se costuma dizer.

Feitas as contas, se gastasse os três meses a cumprir o contrato, ficava ainda com três meses para escrever o livro. Talvez chegasse. Se tivesse uma ideia boa, três meses era tempo mais que suficiente para passá-la para o papel. O problema era que não tinha nenhuma ideia. Nem boa, nem má. Nada. O seu cérebro estava quase vazio de inspiração ou tão cheio que chegava a entupir o tubo de escoamento das ideias. Talvez enquanto cumprisse o contrato, a inspiração surgisse.

Mexia a bebida devagar, observando as pessoas à sua volta. A canela dava um gosto diferente à bebida. Diferente e, ao mesmo tempo, estranho. Não se conseguia decidir se era bom ou mau, era estranho. É um problema de muita gente – não saber tomar uma decisão sem ter tomar um ponto de comparação. Ricardo pertencia a esse género de pessoas. Tudo o que fazia comparava com o que fosse mais parecido possível. Tornava-se chato, e ele próprio o admitia mas, esta sua peculiaridade comportamental, ajudava-o nas suas duas profissões. Cada trabalho era comparado ao anterior, tanto para o melhor como para o pior e isso fazia-o rever os seus erros. Neste caso, a canela era o ponto de divergência entre uma bebida e outra. Bem lhe disseram que não devia beber o cappuccino com aquilo, mas Ricardo, como todas as vezes que lhe diziam qualquer coisa, não dera qualquer importância ao recado. Não sabia mal, até que se bebia bem, era uma fuga à rotina. Quem cai na rotina, cai no desleixo. Muitas vezes ouvira dizer isso. Todos os grandes profissionais – fossem de que áreas fossem – diziam isso. A rotina vicia o corpo e retarda os reflexos, faz o cérebro ficar mais lento. O que é preciso é um desafio para não se estagnar, um impulso para continuar, para se fazer mais e melhor. Estes seis meses iam ser um verdadeiro teste às suas capacidades, uma espécie de Doze Trabalhos de Hércules.

Deu um último golo no cappuccino e olhou para a mesa em frente. Eram quase dez da manhã. O local estava consideravelmente vazio em relação ao que estava há uma hora atrás. A maior parte das pessoas já se tinha ido embora. Uns para o trabalho, outros para o emprego e outros ainda que ficavam por lá a conversarem por mais um bocado. Talvez por não fazerem nada na vida, talvez por terem quem lhes fizesse tudo.

Continuou a olhar para a mesa em frente. Os três homens, que até aí a ocupavam, levantaram-se e saíram. Ricardo mantinha o seu olhar fixo na mesa. Fixo nas chávenas de café que repousavam vazias e no cinzeiro com uma beata mal apagada cujo fumo remanescente subia sem parar em direcção ao infinito, atraído pela força da ventoinha.

Uma imagem começou a formar-se na sua cabeça. Era uma imagem difusa e abstracta. Talvez algum dia viesse a ter uma forma definida mas, até lá, era apenas forma sem forma, linhas sem fim visível. Se tivesse tempo, podia ser que tentasse decifrar o que o seu cérebro lhe oferecia. Infelizmente, tempo era coisa que não dispunha muito nesse momento.

Levou o copo à boca mais uma vez e apanhou os últimos restos de natas com o auxílio da língua. De seguida, levantou-se e, tal como o resto da clientela antes dele, pagou e foi-se embora. Uma mulher loira cruzou-se com ele quando ia a sair do café e sentou-se na mesa onde anteriormente haviam estado os três homens a conversar. A empregada já tinha limpo a mesa. Dos objectos que haviam inspirado a visão de Ricardo já não restava nada.

~º~

Apanhou o autocarro quase por acaso, pode-se dizer. Isto é, não fosse o acaso do autocarro vir com dez minutos de atraso causados por uma paragem inesperada para mudar um pneu, Ricardo teria ficado cerca de quinze minutos à espera do próximo. Era uma diferença mínima, mas ele tinha todos os segundos contados. Um minuto é muito tempo. À escala global, muita coisa acontece num minuto, muita gente nasce num minuto, muita gente morre num minuto. Muita gente morre num segundo, se formos a ver bem. Para Ricardo todo o tempo era precioso. Segundo ele, o tempo era pior que uma mulher gorda porque podia esmagá-lo sem que ele desse por isso.

O atraso do autocarro foi uma casualidade, uma entre as muitas que fazem o nosso quotidiano. O sistema social, as próprias vidas humanas estão tão intrinsecamente ligadas umas às outras que o mais pequeno incidente pode ter sérias repercussões na vida de uma pessoa a vários quilómetros de distância.

Quando o autocarro chegou, Ricardo pensou mais de duas vezes se devia ou não entrar. O tempo urgia, queria começar o trabalho o mais depressa possível, mas o autocarro estava cheio. Mesmo assim, entrou. Não tinha tempo para esperar pelo próximo autocarro.

O autocarro não estava apenas cheio. Estava a abarrotar. O conceito de lata de sardinhas humanizada que as horas de ponta originavam era um conceito que ele achava perfeito. O lugar daquelas (pensava pessoas, mas sentia que isso era um eufemismo) era mesmo numa grelha – assadas e carbonizadas até serem apenas cinzas. Não suportava aquela gentinha. Não se permitia envolver emocionalmente com ninguém. Não gostava de ninguém. Não odiava ninguém. Era neutro no aspecto sentimental. Gostava do que fazia e sentia que para ser bom nisso, tinha de se manter afastado dos sentimentos mundanos, mas tudo tinha o seu limite e estas viagens nestes autocarros com aquela gente ultrapassavam todas as barreiras da sua paciência.

Gostava de pensar que aquelas viagens eram apenas um sonho, que a sua vida era apenas um livro, que aquelas pessoas eram apenas figurantes. O único problema de serem figurantes é que ocupavam o mesmo espaço que ele, consumiam o mesmo ar que ele. Por outras palavras, incomodavam-no. No fundo, tinha pena delas, mas era indispensável que a sua cruzada de tornar o mundo um lugar melhor não entrasse em conflito com a sua actividade profissional.

Infelizmente para elas, Ricardo era um homem de princípios. Fizera uma promessa a si mesmo de só matar alguém pelo princípio de receber dinheiro por isso. Essas pessoas, pensava ele, eram bafejadas pela sorte. A todos os outros, ele apenas os observava. Uns com repúdio, outros com inveja, outros com tristeza, espanto, mas sempre com pena de não lhes poder enfiar vários balázios no centro das suas caixas cranianas conforme o seu prazer assim o ditasse.

Até à sua casa faltavam ainda quinze minutos. Novecentos segundos. Nove mil décimos. Noventa mil centésimos. Novecentos mil milésimos. Se pensasse assim talvez conseguisse convencer-se a si mesmo que tinha ainda muito tempo pela frente. Poderia dar-se ao luxo de começar o serviço quando quisesse, parar para descansar quando quisesse. Seria mestre absoluto do seu tempo. O inconveniente desta contagem do tempo é que esta passa demasiado rápido para se poder acompanhar. Por vezes chega a ser mais veloz que o próprio tempo, porque o tempo visível deixa a sua marca e este não.

Mais uma paragem e chegava a casa. Abria caminho por entre a multidão com o auxílio de fortes braçadas. Parecia que estava numa orgia urbana, roçando em tudo quanto era corpo. Por vontade própria tinha saído pela porta da frente; não tinha vontade nenhuma de mergulhar naquele mar de gente; mas, quando viu o motorista a sujeitar um mulher de idade já muito avançada a sair pela porta de trás, apercebeu-se que não podia contar muito com a boa vontade deste. Escusado será dizer que essa senhora só conseguiu duas paragens à frente da que pretendia e, mesmo assim, só o conseguiu porque foi arrastada pelo escoamento de gente.

Uma melhor comparação que a lata de sardinhas humanizada seria sem dúvida a do autoclismo. A cada paragem que fazia, o autocarro deitava para fora todos os seus dejectos. E a cada paragem novos dejectos entravam. Os filtros, ou não existiam ou não funcionavam.

Ricardo ia conseguir na sua paragem e não apenas com o auxílio do escoamento. Era graças ao seu esforço que ele podia sair quando muito bem lhe apetecesse.

Às onze da manhã, o autocarro parou e Ricardo saiu.

~º~

Entrou no seu apartamento dez andares acima do chão. Decoração barata e sem grandes adornos. O seu apartamento nunca faria parte das páginas de nenhuma revista de decoração de interiores, nem era essa a sua intenção. Trazia na mão o envelope contendo a lista de alvos de que o seu agente lhe falara. Não o abrira. Ainda.

Ricardo passara a sua infância nas ruas, sem ninguém a quem recorrer e era nisso que residia a sua força. Mesmo quando conheceu o homem que tratou dele como se fosse seu filho, o homem que viria a tornar-se o seu actual agente, continuou a ser independente. Passou por muitas privações ao longo da sua vida e foram essas mesmas privações que o fizeram desenvolver um sentido muito próprio de ver as coisas. Ricardo vira muita gente na sua situação a optar pelo crime. Ele não. Ele optara por ajudar as pessoas. Privando-as do seu sofrimento. Fazia-o por respeito e agradecimento ao homem que o salvara da morte certa. Era um fornecedor da velha senhora, mas não gostava da palavra morte para o que fazia. A morte é natural. O que ele fazia era uma libertação.

Caminhou até ao sofá e sentou-se. Ligou a televisão e deixou-se levar pelo mundo do audiovisual. Em boa hora o fez. Estava a dar o programa de culinária da manhã. Quem sabe não lhe daria uma ideia para o seu almoço. Via sempre o programa de culinária. Sempre que podia, quer dizer. Gostava de experimentar pratos novos mas acabava sempre por recorrer ao microondas e às deliciosas pizzas congeladas que comprava a poucos passos de casa a um euro e setenta cêntimos cada.

Pegou numa caneta e num papel e começou a apontar os ingredientes e o modo de preparação. Escrevia depressa mas não depressa o suficiente para conseguir acompanhar o ritmo acelerado e frenético do cozinheiro da televisão. Se tivesse um vídeo podia gravar aquilo e ver mais tarde, rebobinando e avançando conforme a sua velocidade de captação. Finalmente, o programa acabou e Ricardo pousou a caneta.

Olhou para o que escrevera. Gatafunhos ilegíveis. Era o que dava escrever à pressa. Transformou o papel numa bola e deixou-o em cima do sofá. Tinham sido minutos perdidos. Tempo desperdiçado numa tarefa que ele sabia ser inútil. Assim que abrisse o envelope e tomasse contacto com as pessoas a eliminar iriam acabar aqueles fetiches. Seria apenas trabalho, muito trabalho e pouco descanso. Se tivesse tempo, talvez comesse uma sopa. Talvez. Agora, programara vinte minutos para aquecer uma pizza no microondas, tomar contacto com a lista enquanto comia e preparar as coisas para começar o serviço.

Levantou-se do sofá e caminhou até à cozinha. Abriu o frigorífico e tirou de lá uma pizza. Queijo, cogumelos, fiambre e ananás era os ingredientes mencionados na embalagem; isso e mais uns compostos e reguladores que ele não sabia para que é que serviam. Rasgou o invólucro de plástico que protegia a pizza das impurezas do ar e das demais superfícies e colocou-a no prato giratório do microondas.

Oito minutos era o tempo indicado. Durante esse período sujeitou-se às radiações imanentes do electrodoméstico, deixando-se ficar a observar o efeito das ondas de calor no que em breve iria ser o seu almoço. O queijo derretido acompanhava com o seu borbulhar os movimentos convulsivos da massa. Era um bailado alimentar que ocorria perante os seus olhos de espectador atento.

Os oito minutos estavam a chegar ao fim. A campainha tocou, avisando-o de que o almoço estava pronto. Ricardo abriu a porta do microondas. Um pequeno fio de vapor emergia da pizza. Pegou num prato e, com o auxílio de uma espátula, tirou a pizza do prato giratório e passou-a para o outro prato. Com um punhado de oregos deu o último retoque no quadro.

Ia acompanhar a pizza com um refresco de café com sumo de laranja e canela. Estimulante, vitamina C e afrodisíaco. Três em um. Costumava acompanhar as pizzas com um café com natas, mas não tinha natas no frigorífico (fez uma nota mental de comprar um pacote da próxima vez que fosse ao minimercado) e o tempo quente fazia o seu corpo implorar por qualquer coisa refrescante.

Abriu o envelope com a faca e tirou cinco folhas de cores distintas, contendo o nome, a morada e uma fotografia da pessoa a eliminar, entre outros dados mais ou menos importantes. Começou por ler os nomes. Alguns, conhecia. Outros não. Reconhecia um nome em particular, Manuel Ribeiro de Azevedo. Fora seu patrão nos seus tempos de guarda-nocturno. Dois eram figuras importantes do mundo dos grandes negócios. Dos outros dois nunca tinha ouvido falar.

Observou as fotografias com atenção. Três empresários, uma mulher e um dealerzito de rua. Este era o primeiro da lista. Felizmente para ambos, Ricardo sabia quem era. Não apenas isso. Sabia onde ele costumava estar. Ainda por cima era perto de casa. Podia ir lá assim que acabasse de almoçar. A mulher também não lhe era desconhecida de todo. Tinha a impressão de já a ter visto lá no café. Talvez já tivesse lá ido tomar o pequeno-almoço. Talvez. Mas, em dez anos já muita gente foi lá tomar o pequeno-almoço. O seu sentido de observação era grande mas não grande o suficiente para se lembrar de todas as caras que calhavam a passar no raio de alcance do seu espectro visual. Era a última da lista. Os três VIPs ficavam no meio.

Era uma lista bastante variada. Bem melhor que a última. O resultado de trabalhar com alvos aleatórios era este. O seu agente reunia uma lista de alvos em função da proximidade que tivessem. Organizava a lista de modo a que ficasse tipo uma teia, tendo cuidado para que Ricardo não ficasse no meio do tear.

Normalmente, não havia qualquer ligação entre Ricardo e as suas futuras vítimas. Para não atrair suspeitas. Desta vez, porém, haviam não um, não dois mas, possivelmente, três pontos de ligação. Teria que ter o dobro, talvez o triplo do cuidado, para não deixar pistas para a polícia. Respeitava o trabalho deles, por isso não suportava que eles não compreendessem o dele. Servir e proteger. Ele não protegia, mas servia. Será que não chega? Um dia destes ainda havia de trocar algumas impressões com um agente. Mas se, para isso, tivesse de ser preso preferia não ter que o fazer. Valia mais guardar as suas impressões para si mesmo.

Guardou a lista na carteira e colocou o envelope no saco do lixo. Passou o prato e os talheres por água e deixou-os ficar em cima do lava-loiça. Quando voltasse lavava-os.

Dirigiu-se ao seu quarto. Da sua mesa-de-cabeceira tirou um revólver. Abriu-o e verificou o número de balas. Seis no tambor mais uma no cano. Se tudo corresse bem só iria precisar de cinco. Só no caso de alguma eventualidade é que iria precisar das outras duas.

Abriu o guarda-fatos e tirou um cinto parecido com aqueles que a polícia usa para transportar armas. Era uma lembrança dos seus tempos de guarda-nocturno. Bem como o revólver. Tirou a t-shirt e colocou-a em cima da cama. Guardou o revólver no coldre e apertou o cinto. Eram lembranças não autorizadas, mas lembranças.

Tinha sido guarda-nocturno numa altura em que o negócio andava fraco. Precisava do dinheiro e conseguira arranjar aquele emprego. Não era mal pago e ficava com o dia todo livre. Felizmente durou pouco tempo. Nunca fora homem de cumprir horários, era rigoroso a cumprir os seus, mas não os dos outros.

Tornou a vestir a t-shirt. Tirou também um casaco para disfarçar o alto na coluna. O calor era imenso mas se fosse apenas de t-shirt, era capaz de dar mais nas vistas. Em Lisboa o que não falta é malucos. Ricardo não gostaria de ser um, mas se fosse preciso era capaz de se fazer passar por um.

Saiu do quarto e voltou à cozinha. Os vinte minutos que programara já iam em trinta. Tinha que começar a ser mais rápido que isso. Colocou a embalagem da pizza vazia e o plástico dentro do saco do lixo. Espreitou em redor por mais algum papel esquecido. O papel com os seus últimos rabiscos culinários repousava esquecido em cima do sofá. Colocou-o também no saco. Deu-lhe dois nós e pegou nele. Dirigiu-se para a porta de saída.

Às doze horas, Ricardo saiu do seu apartamento. Carregou no botão do elevador e esperou até que este chegasse. Entrou e carregou no botão do R/C. Em menos de trinta segundos ia sair do prédio. Em vinte e seis segundos exactos, a caçada ia finalmente começar.

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