A SAGA DO PEQUENO JOÃO I

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

O PLOT

As aventuras dum sujeito como não há igual. Volume um: variações físicas (inclui a IURD, a rapariga do casaco vermelho com medo de aranhas e de pães com chouriço com recheio de chocolate de mentol, o rapaz do quisto e os três reis gagos).

A BASE

Quem já leu estes pequenos contos escritos num misto de português e brasileiro sabe que é difícil descrever ao certo o que isto é. Ao princípio começou por ser uma história escrita em parceria com Paulo Lameira numa aula para ajudar a passar o tempo. Depois cresceu e tornou-se o que hoje se sabe. O que não é dizer muito.

ESTÓRIAS EM AVULSO (excerto)

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

O homem que não estava lá


Assim, entrei no bar e dirigi-me de imediato ao balcão. Não fazia ideia das horas, mas palpitava-me que não passava muito das três da tarde. Sentei-me e esperei até que o empregado dessa pela minha presença. (Prefiro assim a admitir que ele me ignorava propositadamente.) Este, ligeiramente curvado, passava um pano – húmido, supunha, embora saber isso não me interessasse muito – nas mesas; decerto mais sujas de pó, que propriamente de comida.

Olhei à minha volta, tinha tempo para esperar. Ou para ser ignorado, conforme. A decoração do bar era toda em madeira; ou, pelo menos, imitação de. Aqui e ali, um quadro daqueles em que figuras (as)simétricas formam uma face, um corpo ou um outro objecto inanimado. Li num livro ou numa revista, não me recordo bem onde, o nome disso. Quer dizer, acho que li. Talvez seja eu na minha ignorância a supor que uma coisa assim tem nome. Deve ter, não é? Nós, humanos, temos tendência para dar nome a tudo.

Tossi, sem intenção expressa de alertar alguém. O que é certo é que, com ou sem intenção, o empregado, finalmente, deu pela minha presença. Como havia esperado pouco para ser atendido – isto, no entender dele, não no meu – pediu-me para esperar mais um pouco. Só até acabar o serviço.

Acedi ao seu pedido. Não com prazer, que fique isso bem claro, mas com relativa facilidade. Vistas as coisas, não tinha mesmo nada para fazer. Podia esperar o tempo que fosse preciso. É como tirar um dia ou uma tarde para ir às Finanças ou à Segurança Social tratar de qualquer coisa. Podemos lá estar o dia todo. Podemos, não queremos, mas tem de ser.

Lá o empregado acabou – ou pausou – a sua tarefa de remoção de impurezas várias, pendurou o pano nas costas duma cadeira e dirigiu-se ao outro lado do balcão para me atender.

Olhei para a prateleira e vi que além dos lotes de café normal, tinham também disponíveis lotes de outros países. Pedi ao empregado um à sua escolha. O seu favorito. Respondeu-me que não tinha, que não bebia café. Um qualquer, então.

Enquanto ele tirava o café – não cheguei a ver qual o lote escolhido, nem me apeteceu perguntar – pedi-lhe que ligasse a televisão.

Ele colocou a chávena fumegante num pires à minha frente, desviando ligeiramente a colher, pegou no telecomando debaixo do balcão e acendeu a televisão. Feito isto, regressou ao meu lado da fronteira e retomou a sua tarefa de limpeza das mesas.

Em cima do balcão estavam dois potes com pacotes de açúcar – adoçante nem vê-lo –, tirei um pacote, adicionei a quantidade mínima desejada e mexi o suficiente. Despi o casaco e pousei-o no banco ao meu lado, tendo o cuidado de dobrá-lo, de modo a que não caísse no chão.

Na televisão estava a passar um dos habituais programas de início de tarde. Pedi ao empregado se podia mudar de canal, para um de notícias. Ao que ele respondeu que só tinha quatro canais disponíveis. Sabendo eu da oferta promovida pelos outros três canais àquela hora, decidi ficar-me por ali. Ao menos, a apresentadora deste tinha um bom par. Sempre tornava a coisa mais suportável. (Ah! Como gosto do Verão…)

Reconheci um dos convidados do programa em questão como sendo uma figura proeminente do nosso jet set (seja lá o que isso for). Não que isso tenha algum interesse para mim. É apenas uma daquelas coisas que se sabe.

Só então provei o café. Havia arrefecido entretanto mas, ao longo dos anos, habituara-me a tomar o café frio. Continuava a não gostar; só que chega a uma altura em que, mesmo não gostando das coisas, conseguimos suportá-las, porque o corpo e a mente já se habituaram a elas. Sorvi-o em golos pequenos, intervalados como relances à televisão e ao decote da apresentadora.

Não sendo esse o seu propósito, o café ajudou-me a relaxar um pouco. Senti a tensão acumulada dos últimos tempos a desanuviar. Uma estranha tranquilidade apoderava-se de mim; efeito contrário, quase profano, ao que seria de esperar duma bebida estimulante.

Pousei a chávena vazia e perguntei ao empregado se não tinha nenhum jornal que eu pudesse ler. Disse que sim, que estava debaixo do balcão. Era só esticar o braço. Assim fiz.

 Comecei a desfolhá-lo sem olhar para as manchetes. Avancei até à secção que me interessava, a secção de necrologia. Por motivos pessoais e não profissionais. Li os vários obituários. O que me interessava não estava lá. É pena. Gostava de ler o que foi que eles escreveram. Se calhar houve algum atraso nos Correios ou isso.

O velório tinha sido ontem. Hoje seria, ou melhor, está a ser o funeral. Era suposto eu lá estar. Sei que vão notar a minha ausência, mas que se lixe. Sempre fui uma pessoa assídua e pontual. Nunca faltei a um compromisso assumido. É a primeira vez que o faço. E se o faço é porque tenho motivos para tal.

Não me apeteceu.

É tão bom motivo com qualquer outro. Além disso, não aceitei nada. Fui… obrigado a estar presente. E eu detesto ser obrigado a fazer seja o que for.

Pelo menos é um motivo honesto. Motivos honestos é algo que não se encontra muito nos dias que correm; há que respeitá-los por isso.

Continuei a ler o jornal com o intuito de me inteirar dos últimos acontecimentos.

O empregado terminou o seu serviço e regressou ao seu posto do lado de lá da fronteira. Pegou na loiça à minha frente e colocou-a no lava-loiça. Quando tivesse mais logo lavava, deu a entender. Serviu-se duma imperial e passou novamente a fronteira para se sentar ao meu lado.

Senti que era o momento certo para dizer algo. Não tinha muito para dizer e, julgando pelo aspecto do local, as oportunidades para conversar não deviam ser muitas. Talvez ele fizesse por isso, por se limitar a servir os clientes e pouco mais, talvez não gostasse de conversar, preferisse que o deixassem em paz. Paciência. Também há muita coisa que eu não gosto e que tenho de fazer. E aqui fazia-o, não por implicância, mas por impulso. Um estranho impulso, tão contrário à minha natureza, como beber café para me acalmar.

Pousei o jornal e perguntei-lhe se era costume o bar estar tão vazio. Ele disse-me que aquilo é uma zona pouco frequentada, que as pessoas só param ali quando não sabem para onde vão. Cliente que sai, não torna a entrar, disse lá. Muitos não sabem sequer que o sítio existe. Só quando é preciso.

Partilhei com ele algumas ideias sobre como divulgar o bar e atrair clientes de forma rápida e regular. Comecei por explicar os diversos meios de divulgação que tinha ao seu dispor, os custos que teria, os ganhos. Sugeri-lhe alguns slogans. Nada por aí além, frases simples, feitas no momento. Com tempo, disse-lhe, conseguiria fazer melhor.

Perguntou-me se eu estava na área da publicidade. Eu disse que sim, estava. Mas, infelizmente, continuei, estava já afastado desse mundo.

É pena, disse ele. E pareceu ser sincero. Mais sincero do que quando aceitou que lhe falasse sobre promoções e divulgações. Deixara-me falar por favor, mas como eu não lhe pedira nada, não me sentia minimamente incomodado.

Já se decidiu, perguntou ele.

Não tinha nada para decidir. Ou tinha?

Por minha decisão faltei a um funeral a que era suposto ter ido. Estava tenso, decidira ir dar uma volta, tomar um café, desanuviar. Tinha decidido fazer isso. E de momento não havia mais nada para decidir.

Tornou a perguntar acerca da minha decisão, como se fosse sua a responsabilidade de me questionar e saber.

Decidir o quê?

Para onde vai, depois de sair.

Para casa.

Já é tarde para você ir para casa.

Nunca é tarde para ir para casa. Para ver a mulher e os filhos. Eles estão à minha espera. Não me posso atrasar.

Estarão mesmo?

Imagens sangrentas de corpos mutilados, enfiados em sacos térmicos e arruinados junto a ervilhas e carne numa arca congeladora invadiram o pequeno ecrã de televisão. Senti-me enjoado. Pela acção em si também, mas mais por ser eu o autor de tamanha carnificina. De machado na mão e olhar vazio, cortava membros, decepava troncos. O sangue jorrava dos corpos como fontes. Golpes certeiros calavam os gritos.

Era um pesadelo. Só podia ser.

O empregado olhava para a televisão. Decerto não via o mesmo que eu ou não estaria tão tranquilo. Sentia o meu coração acelerar, as forças a abandonarem-me como se fosse perder os sentidos. Mas não perdi. Aguentei. E continuei a ver. Era incapaz de suportar o horror, porém, era também incapaz de o ignorar por muito que tentasse.

Um último golpe num corpo já sem vida e vi-me a pousar o machado. Vi-me dirigir à cozinha, lavar as mãos, preparar uma sandes e uma bebida e regressar à sala, sentar-me no sofá, junto do torso de um meu filho – era difícil saber qual – e comecei a comer. Acendi a televisão. No ecrã panorâmico tornava-me a ver, desta vez no bar. Era um ciclo sem fim aparente.

E agora, já se decidiu, tornou o empregado a perguntar.

Não conseguia responder. Só me interessava saber como havia arranjado aquilo. Que sítio era aquele.

Isto é só um local de passagem para os indecisos.

Não era real. Nada era real. Eles estavam vivos. Tinham que estar.

Vai demorar muito, parecia irritado, tenho mais que fazer.

Como foi que vim aqui parar?

Da mesma maneira que os outros. Sem saber. Só quem não sabe para onde vai, ou que não sabe que tem de ir para algum lado é que vem aqui ter. Este local é um imane para os indecisos. Usou o adjectivo deixando ver que já se começava a cansar de o dizer tantas vezes.

Mas eu sabia. Sabia e tinha a certeza que o que sabia era verdade e não somente fruto da minha imaginação.

Sabia que tinha saído tarde de casa. Sabia que o resto já tinha saído antes de eu acordar. Sabia que era suposto ir a um funeral. Sabia que em vez disso tinha decidido ir ali.

Mas porquê?

Nem a minha casa, nem o meu trabalho ficavam ali perto. Sei que procurara um sítio fora da minha zona, um sítio onde ninguém me conhecesse, onde pudesse estar sem ter pessoas a perguntar então, que fazes aqui? Passara por outros sítios antes de encontrar aquele, só que não havia passado da porta.

O que me trouxera ali?

Teria sido apenas por ser uma zona onde me pudesse isolar? Acalmar? Reflectir? Ou seria um destino traçado, independente do caminho que percorresse, das escolhas que fizesse?

Era suposto eu ter ido a um funeral hoje, disse ao empregado. Queriam que eu falasse qualquer coisa.

Quem foi que morreu?

Foi…

Não me lembrava.

Foi alguém muito próximo. Disso tenho a certeza.

Voltaram as imagens ao ecrã, accionadas pelo momento, ou pelo subconsciente ou pelo que fosse. De novo o horror, desta vez com um pequeno extra.

Deitado na banheira, de água a correr, eu passava a lâmina do machado pelos pulsos. Cabeça tombada para trás, o sangue misturava-se com a água. A imagem parou ali.

Arregacei as mangas da camisa e vi os cortes feitos nos pulsos.

Eu também morri?

Pode-se dizer que sim.

Que raio de resposta é essa? Onde está a minha família? Que foi que lhes fizeram?

Nós, nada.

Não era real. Não podia ser real.

E eu? Eu fiz alguma coisa?

Acabou de testemunhar as suas últimas memórias.

Não…

Eu disse que isto era um local para os indecisos tomarem as suas decisões.

Que sítio é este?

Não posso dizer o nome. Apenas o posso encaminhar.

Ajude-me…

Aqui vêem os indecisos, cientes ou não de que têm um caminho a percorrer. Aqui revêem não apenas as suas memórias, como também os seus pensamentos.

Quer dizer que…?

A sua família continua viva. O que viu foram os seus últimos pensamentos antes de…

Eu não os matei?

Não. Queria matá-los, mas resistiu ao impulso.

E agora?

Agora tem de decidir para onde vai quando sair daqui.

Só tenho duas opções, não é?

Cada um sabe de si. Uma vez feita a escolha, há apenas um caminho à nossa espera.

Nunca pensei que pudesse escolher. Para dizer a verdade, nunca acreditei que este sítio existisse.

É normal. Isto é o teste final. A escolha já foi feita por si. Isto é apenas uma mera formalidade.

Pensei no massacre, no suicídio, no percurso feito até ali. Relembrei partes e momentos da minha vida votados, entretanto, ao esquecimento. Tomei a minha decisão. Puxei da carteira.

Quanto é o café?

É por conta da casa.

Guardei a carteira.

Já se decidiu?

Já sim.

E?

Tenho a família à minha espera.

Levantei-me e dirigi-me para a porta. A rua continuava igual, com a diferença de que agora conseguia ver outros como eu que haviam preferido aguentar mais um pouco antes de partirem de vez.

Vesti o casaco e comecei a caminhar, pensando no momento em que abrissem o caixão no cemitério. Estaria eu lá?

ESTÓRIAS EM AVULSO

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

O PLOT

Contos que variam em género, tamanho e tudo.

A BASE

Pensei em escrever uma colectânea para cada um dos géneros aqui presentes, mas logo conclui que não seria boa ideia. Primeiro, iria demorar muito tempo. Segundo, porquê limitar-me a um só género?

Este livro irá conter desde histórias de terror e de ficção científica, a drama, humor, histórias infanto/juvenis, etc. Talvez haja um ensaio ou outro pelo meio. A escolha final caberá aos leitores.

PÓS-TRANSPARENTE (excerto)

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

I

VIVER

CAPITULO 1 – COMO NUMA TEIA

“Mas a morada da aranha
é a mais frágil das moradas.”

Alcorão 29,41

“Constrói a sua casa como a aranha
como a choupana levantada pelo guarda.
Deita-se rico mas será pela última vez;
Ao abrir os olhos já deixou de existir.”
Job, 27, 18/19

Não sei porque motivo estou aqui. Não sou pessoa de jurar, mas neste momento sou bem capaz disso: juro que não sei.

O espaço à minha volta é pequeno, sujo, degradado. Os estofos vermelhos e esburacados são desconfortáveis. Muito, mas mesmo muito desconfortáveis. O chão está sujo e cheio de lixo. Matérias viscosas que me prendem. As janelas, praticamente nenhuma delas tem vidro. Estou habituado a melhores condições. Não foi por isto que paguei.

Terei mesmo pago? pergunto-me.

Estou sozinho na carruagem. Nenhum passageiro entrou, nenhum passageiro saiu. Apenas eu. E uma pequena aranha a tecer a sua teia junto da única janela ainda com vidro intacto. Atento na fragilidade da sua obra. Um esforço admirável, susceptível de ser desfeito por uma simples lufada de vento.

Desconheço se existe algum maquinista ou se a locomotiva é movida apenas pela força do meu pensamento ou, porventura, atraída por alguma espécie de íman.

Espreito pela janela e vejo uma paisagem deserta. Campos carbonizados pelas chamas. O céu escuro ainda com resquícios de fumo. O sol a ser engolido pela lua num estranho e inesperado eclipse.

O espaço à minha volta começa a desaparecer. A carruagem deixa de existir como se fosse apenas uma miragem. O sol, bem como o resto da paisagem, deixa também de existir. Fica apenas o vazio.

A sensação de deslocação através do espaço continua lá. O objectivo, seja ele qual for, também.

à distância vejo algo a aproximar-se. Outro viajante a viajar em sentido oposto. Na minha direcção. Será alguém a partir de outro destino? Ou talvez eu a regressar de um sítio ao qual ainda não cheguei?

Sinto-me a parar. Não apenas o espaço à minha volta, mas também eu. Sinto-me, melhor dizendo, estou paralisado. Por momentos penso que o objectivo desapareceu. Mas depois vejo que não. Continua lá. Seja lá ele qual for.

Nas trevas surge uma sequência de luzes.

vermelho.

Sinto a paralisia a passar.

amarelo.

Consigo agora mexer os dedos.

verde.

sinal, permissão, para avançar. Desta vez, pelos meus próprios pés. Para quê? Não sei.

Avanço, apesar de tudo. Apesar de uma decisão aparentemente simples poder ser a derradeira, avanço. É assim: quem não arrisca, não petisca. O grande problema, ou pelo menos parte dele, se é que tal existe, é que eu não sei porquê ou para quê eu arrisco. Mas arrisco. E é isso que interessa.

Na escuridão, o vazio é universal. No imenso silêncio sepulcral oiço o meu coração. Rápido e pesado. Como um martelo pneumático nas mãos de um trabalhador do leste europeu em hora de ponta.

A luz surge. As primeiras imagens nítidas também. Nada que eu compreenda. Nada que eu queira compreender. Ou encarar.

Penso em fugir.

Mas é tarde demais para reagir. Tarde demais para pensar.

O medo na forma de líquido amargo verte do céu, como gotas de chuva ácida. Temo o que vejo. E mais ainda o que não vejo. O negro. O vazio.

Ao fundo, uma figura de branco a encarar-me. A sua face oculta oscilando na distância. Cada vez mais perto, cada vez mais longe. Sempre imóvel. Uma dor indescritível assola-me o corpo. Não sei o que a provoca. Não sei como pará-la. Não sei se a quero parar.

O chão desaparece. Talvez nunca tenha existido, talvez seja a gravidade a perder o seu efeito. Sinto-me a cair num abismo sem fundo.

E depois, vindo não se sabe bem donde, não se sabe bem como, um grito a interromper o estigma do silêncio.

O meu grito. O meu estigma. O meu silêncio.

É então que me apercebo que não sei o que aconteceu à aranha.

Acordo só e desorientado como todas as noites de há uma semana para cá. Olho para o despertador — quase quatro da manhã. Dói-me a cabeça. Não muito, só um pouco. De qualquer das formas, dói, e é isso que interessa. Não a dor, mas o facto de saber que ela existe, que está lá a marcar presença.

Devo estar a ficar com febre. É o que dá andar à chuva sem chapéu em pleno Inverno. Inverno frio como há muito não se fazia sentir.

Mais um pesadelo, mais uma noite sem dormir. Sinto os pensamentos abandonados horas antes a regressarem ao activo. O meu sistema operativo pessoal, concluída a fase de arranque, encontra-se agora pronto para as habituais tarefas e consequentes mensagens de erro que, na minha vida, são uma constante. É pena é quando as coisas brecam não ser possível fazer um alt+ctrl+del. Um simples alt+ctrl+del. Só isso. Um reset mental sempre que as coisas não corressem bem. Quase sempre, portanto.

Cada noite é mais difícil que a anterior. É sempre assim, o que é mau tarde ou nunca melhora. As imagens surgem com o cair das pálpebras e instauram o medo. Não sei porque razão o temo. O sonho, digo. Será mesmo necessária uma razão para se temer o desconhecido? Nunca consegui perceber o sonho. Ou pesadelo. Tenho medo exactamente por isso mesmo, por não saber o que significa.

Desvio o lençol e o cobertor e saio da cama. Movimentos um tanto quanto ainda lentos. Chinelos, robe, e lá vou eu a caminho da cozinha, com um andar trôpego, para mais algumas chávenas de café. Talvez algumas torradas ou bolachas também. Isto se a fome aparecer até lá.

Na cozinha preparo o café (penso que deve dar para umas três chávenas, mais ou menos) e dirijo-me de imediato para a sala de estar. A fome acabou por não aparecer mas, de qualquer modo, levo também um pacote de bolachas para acompanhar. Não sou guloso, mas sei apreciar as coisas.

Da janela aberta do meu décimo segundo andar, fortaleza moderna que me mantém enclausurado do caos urbano, vejo a chuva a cair torrencialmente e a ensopar a carpete. Fecho a janela, mas deixo a persiana entreaberta. As gotas batem na caixa metálica da persiana. Às vezes penso que deveria mudar de apartamento. De preferência, para um que tenha a caixa da persiana no interior. Aquele ruído irrita. Parece que estou numa casa cercada e as gotas são como balas que me tentam acertar. É uma comparação estúpida, eu sei. É o que dá dormir pouco. Ficamos estúpidos. Estúpidos e irritantes.

Apesar de tudo, a chuva tem as suas vantagens. É uma noite boa para se ficar em casa. Mas não sozinho. O que vale é que hoje é sexta-feira e à sexta-feira nunca durmo sozinho. Não quer dizer que vá dormir, normalmente não é isso que acontece. Mas, quer eu durma quer não, o que é certo é que não o farei sozinho, e é isso que interessa.

Sento-me no sofá e acendo a televisão. Zapping rápido apenas por mera rotina. A esta hora já sei que só dá merda — tv-shops, telenovelas venezuelanas e programas que não interessariam nem ao menino Jesus se ele ainda fosse vivo. Decido aproveitar, feito o zapping, para ver um filme. Pouso a chávena no chão e caminho até à prateleira dos audiovisuais. Também chamo à prateleira onde ponho os livros prateleira dos livros.

Da minha modesta colecção de DVDs escolho um dos vários filmes que ainda não vi. Comprei-o por uma bagatela. É um vício que eu tenho desde há muito tempo: comprar só porque é barato e depois deixar ficar na prateleira a ganhar pó. Isto é válido, não apenas para os DVDs, mas também para os CDs e livros. Sou um consumidor teórico por definição; ou melhor, um consumidor intencional.

Coloco o DVD seleccionado no leitor. Sento-me no sofá, dou mais um golo no café, abro o pacote das bolachas e ponho uma metade na boca. Recheio de chocolate. Como não gosto de baunilha e sou alérgico a morango, tem de ser de chocolate. Pego no comando do leitor e acedo aos extras. Gosto de ver primeiro os extras antes de ver o filme. Este parece estar bem recheado: vários previews, um trailer, comentários do realizador, do produtor, dos protagonistas, making-off, etc., etc., etc.

Acabados os extras, passo para o filme em si. Legendas em sueco. Sim, porque não?

O filme começa. Passados dois minutos tiro as legendas. O filme está bem construído, bons diálogos, bom ritmo. Bom filme. Penso que já o deveria ter visto há mais tempo. Se calhar até já vi e não me lembro. Acontece. Não é sempre, mas acontece. Dizem que a memória humana retém tudo. O difícil é aceder à informação quando queremos.

Durante as cerca de duas horas que se seguem deixo o meu subconsciente absorver as imagens e sons emitidos. Mais tarde, eu sei que ele encarregar-se-á de pegar nessa informação, no seu significado, e convertê-lo em algo completamente diferente. Memórias dispersas de um tempo breve serão transformadas em sequências de pensamentos que darão origem a pesadelos. É assim que começa sempre.

Ocasionalmente, os olhos fecham-se, por meros segundos apenas. Nada que afecte a percepção do filme. Aproveito esses momentos para pôr o filme em pausa e ir à cozinha atestar a chávena. Três chávenas, medida certa.

Tal como eu havia previsto.

As bolachas duram a primeira meia hora. Trago também outro pacote para a meia hora seguinte. Aos setenta minutos de filme, faço uma paragem para ir à casa de banho. Muito chocolate faz sempre o seu efeito.

O filme termina em grande apoteose. Olho para o telemóvel em cima da mesa. A bateria já não está a piscar. Seis em ponto. Mais meia hora e está na hora de me começar a despachar.

Por mais que pense que este modo de vida é ridículo, por mais que saiba, continuo a fazer o mesmo. Noite após noite. Dia após dia. Porquê? Não é à falta de interesses amorosos. Tenho acção suficiente. A nível físico, quero dizer. Mas, falta-me o resto. Algo estável, não apenas físico. Algo mais que isso. Acima de tudo, alguém que me faça companhia.

No entanto, apesar de pensar assim, quantas não foram as vezes que eu, perante a oportunidade de ter tudo isso e mais, virei costas e afastei-me de um futuro promissor. Porquê? Talvez seja estúpido. Talvez tenha muita garganta mas, na hora da grande verdade, eu me afaste. Talvez aprecie muito a minha liberdade para me deixar prender dessa e de qualquer forma. Talvez sim, talvez não. Não sei.

De qualquer modo, ainda é cedo para pensar nisso. Ainda só tenho trinta e um anos. Ou sete, para ser mais exacto. Não, não sou maluco. Faço parte de uma minoria, não de malucos, que apenas comemora o aniversário de quatro em quatro anos. Se bem que no meu caso, nunca há assim muito para comemorar.

É verdade que já não sou assim tão novo quanto isso, mas tenho um espírito jovem. Penso que tenho. Além da idade, digo. Às tantas, o que eu entendo como sendo a minha irreverência inata, pode ser apenas um claro sinónimo de imaturidade ou um reflexo da minha verdadeira idade.

Não tenho medo de assumir um compromisso. Sou bem capaz disso. Simplesmente, por enquanto, ainda não encontrei ninguém além de ocasionais companheiras de cama de fim-de-semana.

Encerro a divagação e levanto-me para desligar o leitor e arrumar o DVD no sítio devido. Sento-me novamente no sofá e mudo para outro canal. A esta hora já deve estar a dar qualquer coisa de jeito. Faltam pouco mais de vinte e cinco minutos até eu me ir vestir e começar a despachar. Olho pela janela. A chuva continua a cair, parece que com ainda mais força. O vento também parece ter aumentado.

Na televisão consigo (finalmente!) encontrar um canal que está a transmitir o primeiro serviço noticioso. Durante quinze minutos tento-me inteirar da actualidade. Entre outras coisas, fico a saber que o desemprego continua a aumentar; na notícia seguinte, como contraposto à notícia anterior, um ministro, ou o primeiroum delesanuncia que a retoma está iminente. É interessante ver como as notícias se complementam. Sinto-me fascinado por este mundo e pela sua duplicidade intrínseca. Acho que, mesmo que quisessem ou pudessem, eles nunca iriam acabar com a dubiedade.

Passados os tais quinze minutos, levanto-me do sofá, levo a chávena para a cozinha e sigo para o quarto. Os pacotes já os tinha levado para deitar no cesto do lixo na cozinha, quando fora à casa de banho. O dia vai ser frio e chuvoso, disseram eles na televisão. Grande novidade.

Tenho ainda dez minutos antes que o despertador da aparelhagem ligue automaticamente numa rádio previamente seleccionada e comece a tocar. Por algum motivo, que eu próprio não consigo explicar, continuo a pô-lo para tocar sem necessidade alguma, visto que pouco ou nada durmo. Normalmente escolho uma rádio que passe música de dança. Detesto música de dança. Sempre detestei. Techno, house, transe, ponho tudo no mesmo caixote. Gostos não se discutem, tudo bem. A falta dele, também não. Cada um é como é e acabou. É por isso que escolho sempre esse tipo de sonoridade para acordar.

Em sonhos, chego a imaginar-me a entrar numa discoteca e a disparar vários tiros de bazuca na aparelhagem. Por enquanto, é óbvio que não posso fazer isso, talvez nunca chegue a fazê-lo, mas em sonhos. . .Curiosamente, tanto o acto de disparar a bazuca nos sonhos bem como o acto de desligar a aparelhagem no mundo real assim que ela começa a tocar, são actos quase síncronos. Entendo isso como a minha primeira boa acção do dia. E muitas vezes chega a ser a única.

Enquanto escolho a roupa, o despertador começa a tocar. Rapidamente desligo a aparelhagem. Cinco segundos de audição. Acho que era uma espanhola a cantar. (Mira que es grande!; o meu espanhol resume-se a isto e pouco mais. Mentira, até percebo bem espanhol, mas recuso-me a falá-lo com eles. Quem vem cá é que tem de aprender a língua e não o contrário.) Não sei se a fulana era nativa ou apenas cantava em espanhol. Não cheguei a ouvir o suficiente para saber. A maior parte dos artistas musicais canta em inglês. Aquela resolveu cantar em espanhol. Talvez para ser original. Talvez não saiba inglês. Não me perguntem porquê. Não faço a mais pequena ideia.

Enquanto me visto, tento pôr as ideias em ordem. Sexta-feira é sempre dia de reuniões e não apenas de rambóia, como alguns costumam dizer.

Há mais de uma semana que estou nesta vida de dormir pouco e mal. Talvez não fosse má ideia ir a um médico. Talvez seja algum trauma de infância recalcado a manifestar-se na vida adulta após anos e anos de recusa em enfrentar um problema. É sempre isso. Ou é Sentia-se posto de parte quando era criança? ou então O que é que sente em relação a isso?. Fazem sempre as mesmas perguntas. O verdadeiro grande problema é que detesto psicólogos e psiquiatras e essa gentalha toda. Queimam miolos, exploram miolos, a troco de pequenas fortunas durante cinquenta minutos semanais e depois dizem: A solução tem de partir de si. Eu só estou aqui para orientá-lo. Pois sim. Estão lá é para se ‘orientarem’ à custa dos otários que caem ali de pára-quedas, isso é que estão.

Escolho um fato preto. Hoje não estou de bom humor. Deve ser por não ter dormido nada de jeito. E também porque só tenho fatos pretos. De qualquer modo, estou de mau humor e é isso que interessa.

^/^

Ao mesmo tempo, a uma hora e meia de transportes públicos de distância (tempo calculado sem atrasos), o despertador de Sofia começa a tocar. Sofiavinte e oito anos, licenciada em Artes, pintora por paixão, em busca de um emprego que consiga suportar essa mesma paixão e que, ao mesmo tempo, ponha pão em cima da mesa deixa-se ficar mais dois minutos deitada antes de se levantar para desligar o despertador colocado estrategicamente na secretária a um metro e meio da cama. É uma estratégia que a obriga a levantar-se para o desligar e que resulta, já que a sua tentativa de resistência para ignorar o som irritante do despertador termina sempre da mesma forma: Sofia levanta-se.

A falta de horários para cumprir não é razão para dormir até tarde, costuma dizer. É uma frase sua. Entre outras. Há que despachar e ir à luta. Procurar trabalho remunerado que lhe dê tempo para as suas coisas e, se possível, alguém interessado nas suas obras artísticas. Às vezes fica a pensar se não teria sido boa ideia ter continuado os estudos. Uma pós-graduação, quem sabe. No mundo artístico, não basta ser bom, é preciso ter nome. Na maioria dos casos, é preciso mais nome do que propriamente talento porque, com nome, pode-se fazer a maior merda que há de haver sempre alguém para elogiar. Quando não se percebe a obra de um artista grande, a culpa não é do artista é do apreciador, da sua falta de cultura e perspicácia em relação ao espírito humano. Sofia sabe disso, mas recusa-se a singrar artisticamente através de outra coisa que não seja a sua própria capacidade artística.

Esfrega os olhos ainda pesados, mais fechados que abertos, após a longa noite vazia de inspiração e cheia de frustração. Num gesto quase atlético da sua parte, consegue calçar os chinelos e vestir o robe sem soltar um bocejo com desejos de liberdade.

Hoje vai ser de água fria, pensa, senão não acordo.

Sofia sai do quarto em direcção à casa-de-banho para o banho matinal. Em dias normais teria tempo para encher a banheira e deixar-se ficar a repousar por meia hora, talvez mais, hoje não. Não que não tenha tempo, porque tem, mas porque precisa de aproveitar esse tempo para fazer aquilo que não conseguira na noite anterior — preparar qualquer coisa para apresentar ao senhor Rio, o responsável da galeria. Foi uma oportunidade que surgiu quase por acaso e que ela não pode desperdiçar. A possibilidade de expor as suas obras, ainda que num sítio pouco conhecido, não deve ser de modo algum descurada.

Sofia abre a torneira e deixa a água correr enquanto se despe. Apesar da sua convicção inicial, acaba por regular a água para uma temperatura morna. Fria o suficiente para despertar, quente o suficiente para relaxar.

Sofia entra na banheira e puxa a cortina. A água cai do chuveiro, forte e poderosa, cobrindo com a sua presença húmida o corpo de Sofia. O vapor que sai do chuveiro embacia o espelho pendurado por cima do lavatório e todos os outros vidros presentes na casa de banho. As imagens, outrora reflectidas, são-lhe agora negadas. Talvez por algum tipo de terror, infundado ou talvez não. Seja como for, o que importa reter é se a água está ou não a uma temperatura ideal; não para o seu contacto, mas para o seu rápido despertar. Está. E é isso que interessa. Mais nada.

Ou pouco mais nada.

Com uma certa relutância, Sofia pega no sabonete e começa a passá-lo pelo corpo. De início, apetece-lhe apenas deixar-se estar debaixo daquela forte cascata e ficar ali durante tempos indefinidos, na esperança vã de que a água a purifique, arraste as suas memórias através do ralo, dos canos, dos esgotos, até o rio mais próximo onde estas se dissiparão.

Se esta fosse uma cidade como deve ser, talvez elas chegassem a um Centro de Tratamento de Águas Residuais. Infelizmente, esta não é uma cidade como deve ser. Esta é a cidade onde ela vive. Apenas isso. Apenas o lugar onde ela se mantém até surgir uma oportunidade para ir para um sítio melhor. Até lá tem de trabalhar para que esse objectivo seja atingido.

As manchas de sujidade no tecto, vestígios evidentes, quase palpáveis, de humidade acumulada parecem ganhar mais contraste dia após dia. E, neste caso, a aparência é praticamente, para não dizer de todo, a realidade. Um maníaco de limpeza diria que aquele relevo no tecto está a crescer de forma imensurável. “É preciso limpar aquilo e pintar de novo o tecto.” Para Sofia, aquela sujidade, apesar de bastante evidente quando vista de baixo, está longe, muito longe até, de parecer estalactites. Contudo, talvez pinte o tecto. No Verão. Agora não, agora é Inverno. Inverno é tempo de. . .é tempo de quê? Uma coisa é certa. Não é tempo de pintar o tecto. Isso vai ter de esperar.

O telefone toca no preciso momento em que Sofia está a acabar de tirar o amaciador do cabelo. O grande mal dos amaciadores, apesar das qualidades existem sempre defeitos, é que, por mais que se enxagúe o cabelo, parece que fica sempre lá qualquer coisa. É como uma espécie de frustração não ultrapassada. Fica sempre um pequeno resquício, um mínimo de recordação que seja, quase imperceptível, mas o suficiente para nos condicionar. Mesmo que não reparemos nisso. Ou por outra, porventura mais certa e mais verdadeira: mesmo que não liguemos nenhuma a isso.

Sofia fecha as duas torneiras e sai da banheira, após pegar na toalha pendurada no cabide perto do lavatório e enrolá-la à volta da cabeça para que o cabelo não pingue o chão. O resto do corpo iria a descoberto. Nu, por assim dizer. Paciência, ninguém estaria a vê-la. E, mesmo que estivessem, não seria esta a primeira vez que a veriam nua. Nem a última. Além disso, era uma simples chamada telefónica, não uma vídeo-conferência.

O telefone continua a tocar. Quem quer que esteja do outro lado parece estar com pressa. Ou talvez não. Se estivesse com pressa não estaria tanto tempo à espera. A não ser que goste de esperar.

Tantas hipóteses. Qual delas válida?

A mensagem pré-gravada começa a tocar. Um segundo ou dois depois, Sofia atende.

“Sim.”

“Sofia? É o Sérgio. Apanhei-te numa má altura?”

Hum. . .O que responder? A verdade? Não, estava só a tomar banho. Sarcástico q.b. sem dúvida alguma, mas é melhor não. É preferível guardar o sarcasmo para mais tarde. Até porque ele não precisa de saber a verdade.

“Hã. . .Não.”

“Óptimo. Tou-te a ligar para avisar do seguinte: o senhor Rio ligou-me. É para avisar que a reunião vai ter de ser antecipada para o meio-dia.”

“Meio-dia?! Aquilo era para ser às três!”

“Eu sei. Perguntei-lhe porquê e ele disse-me que surgiu um imprevisto.”

“Deve ter sido.”

“Portanto, ou é ao meio-dia hoje, ou então só para daqui a duas semanas.”

“Duas semanas?!”

“Isto se não surgir nada entretanto.”

Kutabacchimae. . .”

Sérgio ri-se.

“Não faço ideia do que é que disseste, mas seja o que for, não deve ter sido coisa boa.”

“Vê lá que ainda sobra pra ti.”

“Calminha aí! Não mates o mensageiro.”

Sofia ri-se antes de continuar.

“Eu sei que a culpa não é tua Sérgio. Mas tu sabes muito bem que eu não gosto de mudar os meus planos à última da hora. Ainda por cima, por causa das manias de um gajo estúpido como ele.”

“Sofia, ele é a tua grande hipótese de fazeres uma exposição. Ele foi o primeiro, e único até agora, a mostrar algum interesse no teu trabalho. Tem cuidado com o que fazes.”

Sofia suspira antes de responder. “Não é por isso que ele deixa de ser estúpido. Se não tivesse nada marcado ainda era como o outro.”

Sérgio tenta aproveitar para meter um comentário, supostamente cómico. “Qual outro?”

Porém, a reacção de Sofia não foi a desejada. “Não comeces, tá?”

“Sem brincadeiras. Tinhas alguma coisa combinada?”

“Não, nem por isso.”

“Então, qual é o problema?”

“Não gosto, prontos.”

“Não é prontos, é pronto.”

“Tás armado em sarcástico, é?”

“Não, é ironia. Um sarcasmo seria mais exagerado.”

“Bom, tenho de desligar. Lamento muito.”

“Já somos dois.”

Pausa. Sofia parece hesitar antes de perguntar.

“Jantas hoje?”

“Hoje e todos os dias. Tu também devias fazê-lo. Havias de gostar.”

“Não é isso. Queres vir cá?”

“Não sei se posso. Eu depois ligo-te a dar uma resposta. Às. . .cinco, pode ser?”

“Tá. Liga-me para o telemóvel.”

“Vá, até logo.”

A chamada é encerrada em simultâneo.

Terminada a chamada, Sofia regressa à casa de banho para pendurar a toalha no cabide atrás da porta. O cabelo, já seco, precisa agora de respirar. Assim como ela.

Sente então a necessidade, quase premente, de ver o seu reflexo. O espelho ainda embaciado, apesar do tempo que já passou, faz aquele som irritante, quase estridente, tipo um guincho, quando Sofia passa lá com a mão, devagar, para o limpar. Na verdade, não é o espelho que faz o som e sim a acção de passar lá com a mão para remover o embaciado. De qualquer modo, o som é irritante e é isso que interessa.

Uma vez limpa a superfície reflectora, apesar das óbvias dedadas, Sofia olha para o seu rosto em busca de algumas imperfeições faciais, tipo borbulhas, pontos negros, etc. Gesto típico matinal para muitas pessoas. Nisso ela não era exclusiva. Noutras coisas, sim. Nisto, não.

A sua face ambígua, desde há algum tempo para cá que divide opiniões. Para muitos é uma cara normal, banal até, passível de ser encontrada em qualquer lado. Por outro lado, as semelhanças com uma jovem apresentadora televisiva eram mais que muitas. O nome do programa em questão não interessa para o caso, mas a semelhança é notória, segundo lhe dizem quando se apercebem que ela não é quem eles pensam que é, e é isso que interessa.

Eram várias as vezes que pessoas na rua, movidas por aquele estranho hábito popular de aproximarem-se muito sorrateiramente por trás e perguntarem, quase em sussurro, num gesto capaz de provocar um ataque cardíaco a um interpelado desprevenido. “A menina não apresenta aquele programa que dá à tarde na televisão?”

Às vezes, Sofia responde não. Outras vezes, cada vez mais frequentes nos últimos tempos, deixa-se levar e entra no jogo. “Sim, sou eu.”

Não é que ela goste de se aproveitar do que não é seu (que até é, neste caso) mas, essa semelhança facial já lhe permitiu entrar em sítios mais finos onde habitualmente seria convidada a ficar à porta. Seja lá que tipo de convite isso for. . .A culpa não era sua, era de quem não sabia distinguir as diferenças entre ela e a sua sósia. Diferenças essas mais que óbvias no seu e no entender de qualquer bom observador.

Por outro lado, seria também possível, embora pouco provável, que pessoas do círculo de Sofia confundissem a jovem apresentadora com ela (Sofia). Talvez a jovem apresentadora decidisse aproveitar essa confusão para fugir um pouco do mundo da fama e embrenhar-se no anonimato; deixar de ser uma cara reconhecida por milhares e ser apenas uma figura incógnita, um rosto apagado no meio de milhões de rostos apagados. Seria pouco provável que tal acontecesse, mas! se acontecesse, decerto que ela aproveitaria. Talvez. De qualquer forma, seria possível que isso acontecesse e é isso que interessa.

Verificado que estava o rosto, Sofia sai da casa de banho e segue para o seu quarto.

PÓS-TRANSPARENTE

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

O PLOT

Daniel está numa fase conturbada da sua vida. Ao testemunhar um acontecimento horrível provocado por uma decisão sua, apercebe-se de que vive num vazio emocional, de onde não consegue escapar.

Sofia, pintora por dedicação, é uma mulher regressada a Portugal após vários anos de ausência. Traz com ela a vontade de vingar como artista. Mas falta-lhe inspiração para pintar o quadro dos seus sonhos.

É na busca por essa inspiração que Sofia entra em reclusão até conseguir concluir a sua obra.

Entretanto, Daniel, incapaz de enfrentar a culpa, sucumbe ao desespero e entra numa sequência de eventos que culminam com a sua morte.

É aí que tudo começa.

A BASE

O outro lado da vida (ou da morte) sempre me suscitou (penso que não apenas a mim) curiosidade. Acho interessante existirem tantas perspectivas sobre um assunto sobre o qual ninguém sabe nada ao certo.

Aqui, optei por considerar a existência duma fonte comum da qual variaram todas as tradições e ideologias. O ‘meu’ Outro Mundo contém elementos de diversas culturas, umas muito próximas das outras, outras mais díspares.

Quanto à personagem de Sofia, quero usá-la não só como o elemento feminino da história, mas como um contrabalanço na fase post mortem de Daniel. Basicamente, a pergunta é: se da vida passamos para a morte, porque não o contrário? É possível o amor entre dois seres de mundos diferentes? E sim, o que daí resultará?

PORTUGAL, EU E O MEU MUNDO: UM MEDO DE INSISTIR (excerto)

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

1

Comecei a escrever este (espécie de) livro numa altura em que o sol brilhava (por estação e não no momento, pois era de noite) e em que muita gente está de férias. Corria então o ano de 2006, o primeiro ano em que o Governo português decidiu multar todos os banhistas que decidissem ir à água quando não está bandeira verde.

Pessoas maldosas vieram logo dizer que não era justo, que o Governo era uma cambada de chulos que se servia de tudo para sacar dinheiro ao Zé Povinho, etc. Cabe a mim dizer, em abono da verdade, que nada está mais longe da verdade. As intenções do Governo, além de honrosas e lógicas, são sempre cuidadosamente explicadas ao povo. Só não percebe quem não quer.

E eu não quero.

Eu não gosto de praia. Não gosto. Já gostei. Acontece que a partir do momento em que ir à praia deixou de ser um acto social de Verão e passou a ser uma obrigação social de Verão aquilo deixou de ter interesse para mim e passei a optar por outros destinos.

É engraçado agora olhar para o comportamento dos portugueses quando começa a época balnear. Tirando um ou outro, ninguém vai à praia fora da época balnear. O que só prova a minha ideia de que só vão por obrigação. É que as pessoas queixam-se que a gasolina aumenta, que o trânsito está um caos mas, assim que dizem “PODEM IR PARA A PRAIA”, lá vão eles todos contentes. E para quê?

Para passarem o tempo todo a dormir porque na noite anterior tiveram a arranjar as coisas para o dia seguinte e só dormiram três horas?

Depois é a água. Fria, salgada. É impossível alguém gostar daquilo. E a areia? Pequenina mas, sempre, incómoda. Nunca vos aconteceu, por exemplo, estarem a rebolar na areia e ficarem com areia nos pêlos do cu? Ou pior, na pila? Quem me conhece sabe que não costumo recorrer à genitália para causar humor, mas a minha intenção neste momento não é fazer rir, é alertar. Assusta-me a ideia de querer urinar e não poder por ter areia a entupir-me a passagem.

Porque é que as pessoas vão para a praia?

Será pelo sol? Pela água? Pelas mulheres? Pelos homens? Pela areia?! Para dormir? Pelo cancro da pele?

Experimentem colocar um jacuzzi e um vaso com areia na vossa sala de estar… Têm lá tudo. A água, que até podem beber se quiserem, embora não seja muito aconselhável beberem se tiverem dentro dela; a areia – e neste caso não há perigo da areia se entranhar em certas partes. Não têm problemas com o sol. Se estiverem sozinhos em casa podem olhar para todas as mulheres que apareçam na televisão sem que a vossa mulher vos diga alguma coisa. É só vantagens! Será que nunca ninguém pensou nisto antes?

Obviamente, perde-se o contacto humano. Aqueles momentos que ficam na memória. Do género estar deitado na toalha, acabadinho de sair da água e um estúpido miúdo passar a correr e atirar-nos areia para cima e depois ouvir a mãe com voz de gralha esganiçada a gritar “Zé Miguel, sai daí do pé do senhor!!!” e eu a pensar como gostaria de fazer uma operação para remover as cordas vocais àquela senhora.

Mas, voltando à questão dos banhistas e das multas, quero dizer que sou solidário com a causa deles. Se querem ir ao banho com bandeira vermelha, força. É com eles.

Tudo bem que a bandeira vermelha indica perigo, mas e daí? E será que indica mesmo perigo? As bandeiras são hasteadas pelos nadadores salvadores, certo? Imaginem que aparece um que troca as cores – não um confunda as cores, isso é um daltónico –, um que hasteie a bandeira vermelha a pensar que está a hastear a verde e vice-versa. Fica aqui a faltar uma quarta bandeira para ser confundida com a amarela. Ah! Espera! Há a azul. Bate tudo certo.

Imaginem: o gajo hasteia a bandeira verde (que para ele é vermelha), o pessoal vai todo para a água e ele fica radiante só de pensar nas multas que vai cobrar.

Notem que não faço qualquer ideia se é possível alguém trocar o verde pelo vermelho – colorística e não clubisticamente falando – ou não; há quem troque umas letras pelas outras; é possível que alguém troque as cores. Nem que seja a troco de dinheiro ou viagens.

~*~

Outra coisa que caracteriza o Verão são os incêndios. E de há uns anos para cá, temos tido a nossa boa dose de incêndios, não é verdade? É bonito. Não gosto de ver as florestas a arder, nada disso. Mas gosto de regularidade, gosto de saber que todos os anos, naqueles meses quentes, o país vai arder. Todos nós sabemos que o país vai arder e o que é que fazemos?

Tomamos precauções. Preparamos pessoal altamente qualificado. Fornecemos equipamento especializado.

E nada disso resulta. Porquê?

Há dois ou três anos veio num jornal uma reportagem cujo título era “Governo proíbe que façam fogueiras nas florestas.”

E resultou. A partir de então os incendiários deixaram de poder pegar fogo. Porque passou a ser proibido. É claro que muitos dos incendiários que nós temos são analfabetos, ou seja, só os que sabem ler é que agiram em conformidade e passaram a outros crimes menos sensacionalistas como burlar o Estado em milhões de euros.

Fala-se muito do trabalho dos bombeiros, do sofrimento das pessoas que perderam tudo o que tinham. Não me consigo colocar na pele dessas pessoas. Pode parecer insensível dizer que não compartilho a sua dor mas, é verdade. Não compartilho. Posso sentir alguma empatia, pena, mas nada mais. Só quem perde é que sabe o valor daquilo que perdeu. Dizer que sinto algo que não sinto pode parecer bem mas, para mim, parece apenas hipocrisia.

Estou habituado a levar as coisas de ânimo leve. Faz parte da minha natureza, quando colocado numa situação adversa, explorar o lado positivo da questão. Infelizmente, aqui, não há um lado positivo. Terrenos são destruídos, espécies animais e vegetais são destruídas, a memória de gerações é consumida pelas chamas sem que nada se possa fazer.

E, no entanto, existe muito a fazer. Seja a nível de prevenção/vigília, seja a nível de sensibilização, seja a nível de mais apoio à investigação criminal, seja a nível de não aprovar construções para zonas onde existem florestas porque o mais certo é, mais tarde ou mais cedo, essas florestas desaparecerem devido a “causas naturais”.

Conforme vem na Legislação de Direito do Ambiente:

SECÇÃO IV

Fiscalização e contra-ordenações

ARTIGO 22.º

Contra-ordenações

1 – Constitui contra-ordenação a prática dos actos e actividades seguintes, quando interditos ou condicionados, nos termos do nº 6 do artigo 13.º ou nos termos do plano de ordenamento e respectivo regulamento previstos no artigo 14.º:

(…)

h) Colheita ou detenção de exemplares de quaisquer espécies vegetais ou animais sujeitas a medidas de protecção;

Esta alínea implica a chamada “limpeza do mato”. Soube de uma pessoa que foi multada por andar a apanhar galhos secos do chão. A Legislação proíbe quaisquer alterações a zonas protegidas, e isto inclui apanhar galhos secos do chão. É certo que os galhos acumulados depois são queimados e isso pode dar origem a incêndios mas, multar por limpar e depois afirmar que o fogo começou porque a floresta não era limpa devidamente parece-me bizarro. É quase a mesma coisa que alguém ir a uma loja de armas, comprar uma pistola e ser preso à saída da loja porque existe a possibilidade de vir a utilizar a arma para matar alguém.

~*~

Não pensem que vou falar da nova lei das armas agora. Acho isso tão estúpido que nem vou perder tempo a comentar. O Governo vai perseguir todos os possuidores de armas ilegais? Que tal começar pelos próprios agentes da autoridade? Acho que posso estar enganado, mas não houve há uns tempos atrás agentes duma força policial portuguesa envolvidos em tráfico de armas? E como é que isso ficou? Alguém se lembra? Alguém sabe?

Não.

Ouvimos as notícias que nos dão e pronto.

Mas isto é daquelas coisas que eles não falam. Eu sei porque me considero uma pessoa informada. Não sei TUDO, mas sei o bastante para não fazer má figura. A regra é: não é preciso saber, basta convencer os outros que sabemos.

Cresci com a televisão; de certo modo fui criado por ela. E as notícias de então eram tão diferentes das de hoje. O mundo era diferente, claro, mas não era notícia uma mulher cair do sexto andar e morrer. Eu li isto num jornal.

Uma mulher caiu do sexto andar e morreu.

Aposto que se tivesse sobrevivido, a notícia não teria tido o destaque que teve. Já se sabe, depois disto virão notícias como “AVIÃO DESPENHA-SE CONTRA SILO NUCLEAR. MORREM TODOS”.

Parece irreal. Donde é que vêm estas notícias? Eu já não acredito que as coisas aconteçam realmente como nos são relatadas. Eu olho para a situação no Médio Oriente, olho para a crise política por esse mundo fora, o aumento dos gases de efeito estufa, e penso que isto mais parece um filme e o fim está demasiado próximo para ser feliz. É surreal.

A informação é manipulada e distribuída de acordo com os grandes interesses. Quem pensa que os grandes industriais do jornalismo internacional são isentos e imparciais, é estúpido. Informação é poder, nunca se esqueçam disso.

É o tráfico de informações. Fala-se muito disso agora. Como é que funciona? Um gajo vai na rua e aparece um dealer:

“Ó bacano, tenho aqui o título do 24 Horas de amanhã. Queres comprar?”

~*~

Eu não devia estar a falar do 24 Horas.

Porque eu sinto-me desiludido com o 24 Horas. Não pelas notícias. Não posso ficar desiludido com as notícias enquanto eles não começarem a publicá-las. O meu problema é o horário.

O 24 Horas não funciona durante vinte e quatro horas. Sempre pensei que funcionasse, mas não. Fazem uma pausa para dormir e comer. E desilude-me porque eu pensava que a má qualidade do jornal era devido à falta de descanso do pessoal. Assim tinha desculpa. Agora que eu sei que eles descansam – e comem, ainda por cima – vou deixar de roubar, perdão, comprar, o jornal.

Tenho todas as edições do 24 Horas em casa. Todas. E já não é a primeira, nem a segunda vez que eles me desiludem. Nem tão pouco a terceira.

Primeiro disseram que era um jornal diário. Lá diário, ele é. Agora jornal…

Segundo, são as edições especiais.

Com os jornais não acontece muito, é mais com as revistas. Fazem edições especiais em duas ocasiões: no número 100 e em cada aniversário. E o 24 Horas nunca fez isso. Tipo um número 100 com notícias plausíveis, informação interessante para a espécie humana e não apenas para o pessoal que compra o jornal. Nunca vi.

No outro dia estava num quiosque a folhear uma revista. Olhei para a periodicidade, vi que era anual e pensei: “Olha, nº1.”

Gosto sempre de arranjar o número 1. Nem que seja uma revista sobre o míldio ou fraldas descartáveis. O número 1 é um item único. Mas no caso das edições anuais a coisa é mais complicada do que parece.

Será que quando lançarem o nº 2 daqui a um ano vai ser uma edição especial?

É o primeiro aniversário, não é?

Aposto que daqui a um ano, se calhar a encontrar o nº 2 daquela revista, vai ser: edição especial! Os melhores artigos publicados no último ano. Ou seja, quem comprar o nº 1, pode ficar por aí. O nº 2 é o melhor do nº 1; o nº 3 é o melhor do nº 1 e do nº 2 e assim por diante. Só mudam duas coisas, a capa e o editorial que geralmente começa por “Mais um ano que passou”.

Eu nem percebo porque é que fazem revistas anualmente. O pessoal demora assim tanto tempo a ler? Eu leio um livro de 700 páginas em inglês numa semana. Quantas páginas é que essas revistas têm? Deve ser tipo Código da Vinci, deve ter segredos lá pelo meio. Na página 34, na segunda coluna está a palavra “açorda”; mais à frente, na página 42, vem a palavra “isótopo”. Qual a relação esotérica entre estas duas palavras?

Das duas, uma: ou aquilo é tão mau que demora um ano a ser vendido, ou é tão mau que o pessoal compra logo tudo e eles depois ficam um ano à espera a ver se o pessoal se esquece para tornar a vender mais.

~*~

Queixamo-nos muito, amuamos, mas depois… desistimos, baixamos os braços. Não sei o que nos aconteceu. Nós não éramos assim. Mas podemos voltar a ser bons. Tudo o que precisamos é… um exemplo a seguir.

Há um grupo – eu só descobri isto há pouco tempo, vocês se calhar já sabem – que é um exemplo de determinação e persistência que todos nós, todos nós!, deveríamos seguir. Eles são muito populares no Japão. De quem é que eu estou a falar?

Dos grupos de suicídio colectivo. São um verdadeiro exemplo a seguir. Vejam bem.

Sempre que um grupo de suicídio colectivo se reúne o mais certo é acabarem todos mortos. Num clube de características mais, digamos “normais”, isso seria um motivo suficiente para acabar. Eles não. Enquanto os outros acabam, eles continuam.

Na semana seguinte lá se reúne um novo grupo de pessoas, sempre prontas a morrer por causas nobres como o fim dos D’Zert ou a canonização do José Cid. É de louvar tanta devoção.

Mesmo quando se tratam de objectivos que os outros considerariam impossíveis eles não desistem. Porque…

“A esperança é sempre a última a morrer.”

Há quem diga isso e fique todo contente. Não percebo porquê. “Eu, pessoalmente”, acho… estúpido. Não sei.

Se a esperança morre em último lugar, isso quer dizer que eu vou morrer primeiro. Será que sou eu o único a reparar nisso? É só isso que a frase diz. Mais nada.

Eu estou mal. Por acaso não estou. Mas vamos supor que sim. E alguém me diz:

“Não te preocupes. A esperança é a última a morrer.”

Em que é isso me ajuda? Eu vou morrer primeiro. Bela merda de amigo!

A frase só resulta se a pessoa que a ouve, se chamar Esperança. Caso contrário…

PORTUGAL, EU E O MEU MUNDO: UM MEDO DE INSISTIR

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

O PLOT

O meu ponto de vista (o que já de si é qualquer coisa de espectacular) sobre cinema, fogos de Verão, política, notícias insólitas, religião e produtos para animais, entre outras coisas.

A BASE

Durante alguns anos escrevi em blogues (meus, pois as outras pessoas não me deixam escrever nos seus blogues), em portas de casa de banho, etc. Um dia decidi juntar tudo. Alguns dos textos aqui foram também incluídos em alguns guiões para stand-up. A diferença é que aqui estão mais limpinhos, mais bem arranjadinhos, etc.

UM CAPPUCCINO VERMELHO (excerto)

Janeiro 3, 2008 por joelgomes

CAPÍTULO 1

Ricardo era um viciado em cafeína. Desde aquele dia em que descobrira o café pela primeira vez, vai para lá mais de vinte anos, ficou, pode-se dizer, enfeitiçado por aquele sabor único.

Durante anos estudara o café de todas as maneiras possíveis. Do sabor às origens, aprendendo todas as formas de confecção possíveis e imaginárias. Sabia que o café tinha origens árabes, que durante a Guerra Civil Americana os soldados transportavam café para os campos de batalha como alimento de primeira necessidade e que, como produto de importância global, era ultrapassado apenas pelo petróleo. Do mesmo modo, sabia que as suas influências culturais e sociais eram também significativas. A título de exemplo, Bach compôs uma cantata dedicada ao café e em Itália o café é considerado tão essencial à vida diária que é o próprio governo a estipular o preço de venda. De facto, nos últimos três séculos, noventa por cento da população ocidental mudou do chá para o café. É verdade que o chá também tem cafeína, mas para Ricardo o sabor do café é único.

A influência do café na vida de Ricardo era grande porém, ele mantinha esse gosto para si. Não se dava ao luxo de qualquer extravagância. Tinha bom gosto suficiente para ter cuidado com a sua imagem e não aparentar o ridículo. Gostava do café como bebida, digestiva, refrescante, aconchegante, estimulante, o que fosse. Aprendera que, fora a temperatura, as outras faculdades do café só funcionavam se ele deixasse. Talvez não fosse só ele. Talvez todas as pessoas tivessem essa capacidade de filtragem dentro delas. Ou talvez o seu organismo estivesse já tão habituado ao café que a única coisa que ainda conseguia registar era o sabor e a temperatura. Conseguia beber mais de sete cafés seguidos sem que o factor hipertensão tivesse qualquer efeito nele, consciente ou não. Conseguia, mas não o fazia. Não valia a pena fazê-lo. Para muitas pessoas beber café é um acto mecânico. Junta-as em grandes aglomerados, mas não as acalma, apenas fá-las ficarem nervosas e apáticas. Até que o organismo habitua-se tanto à substância que já não reage e o café torna-se um vício para a mente. Ricardo observara este padrão comportamental desde que iniciara a sua jornada no mundo da cafeína.

De todos os estabelecimentos que visitara desde que iniciara essa sua jornada, este era sem dúvida o seu preferido. Um local longe da sua casa, é certo, mas que tratava o café como Ricardo achava que este o merecia: com respeito e dedicação. Esta casa possuía uma grande variedade de cafés, sabores e combinações e de todas essas combinações a sua preferida sempre fora o cappuccino.

Existiam várias maneiras de preparar o cappuccino, segundo o que ele aprendera. Há quem junte chocolate, há quem prefira só leite. Natas, leia-se. A temperatura é outro factor a ter em consideração. Há quem prefira o leite frio, quase gelado, há quem o prefira bem quente. Ricardo já experimentara de todas as maneiras possíveis, mas esta era a sua preferida – o café bem quente com o leite frio. (O leite quente dava-lhe sono.) Era a combinação perfeita. As propriedades estimulantes do café aliadas às propriedades calcificantes do leite. Gostava de usar um pau de canela para mexer o açúcar. Era uma pequena tendência da moda à qual ele depressa aderira. A cada golo que tomava, sentia os seus ossos a estalarem de vigor. Era tudo o que precisava para o seu pequeno-almoço.

Ricardo era dono de um espírito crítico em relação ao mundo que o rodeava. Talvez por esse motivo tivesse duas profissões tão diametralmente opostas, mas que encaixavam tão bem com o seu desejo de mudar o mundo.

Era escritor. Assumia-se como sendo um. Embora as suas obras, as que chegavam a ser publicadas, fossem medíocres, cheias de violência, sexo e morte, tudo isto condensado (e mal) numa linha narrativa fraca, muitas vezes inexistente. Contudo, a falta de sucesso não o fazia recuar nos seus esforços. Gostava de mostrar novos mundos às pessoas. Afastá-las da realidade. O contraponto a esta função de mostrar novos mundos às pessoas não era bem o oposto, mas sim um complemento pois, sendo um assassino profissional, não só mostrava novos mundos às pessoas como também as enviava para lá.

E, apesar deste seu gosto bem refinado, não se sentia um homem limitado a um mundo apenas. Do seu lugar criteriosamente escolhido podia observar toda a fauna que proliferava naquele jardim zoológico humano. Porém, não via nada. Nada. Há dez anos que frequentava aquele café e não conhecia ninguém. Conhecia algumas caras, umas novas, outras velhas, umas mais antigas que ele, ao ponto de já quase fazerem parte da mobília, mas não sabia os nomes associados às caras. Não sabia nem o queria saber.  Sentia que o que fazia era uma espécie de serviço público. O mundo está num estado lastimoso, pensava ele. Não se pode confiar em ninguém. Não se pode andar na rua à noite sem se ser assaltado. Os preços sobem sem parar por causa da inflação e os salários não conseguem acompanhar esse ritmo. Era por isso que, do seu ponto de vista matar pessoas era uma forma de levá-las para um mundo melhor. Sim, era o desconhecido. Mas, Ricardo acreditava que o desconhecido não devia ser pior que o mundo em que viviam.

Acima de tudo, tinha orgulho no que fazia: não era um assassino profissional como aqueles que aparecem nos filmes, todos galantes e charmosos, que matam mais com o charme do que com as balas. O seu sucesso com as mulheres era relativo ao ponto de, por vezes, ser quase nulo, mas isso não o incomodava. Subconscientemente, talvez fosse também por isso que decidira ser um assassino profissional. Ou talvez não conseguisse iniciar uma relação por ser um assassino profissional. Seja de que maneira for, o que é certo é que no seu ramo alternativo é muito perigoso haver um relacionamento afectivo com alguém. Para qualquer uma das partes. É um verdadeiro paradoxo que ele não pretendia decifrar.

Porém, convém não entrarmos em falsas suposições. Ricardo era um assassino profissional, é certo, mas não matava qualquer um. As suas vítimas eram todas indicadas numa lista. Nunca matara ninguém que não tivesse sido contratado para o fazer. Aliás, o seu profissionalismo, o seu código de honra, como ele gostava de chamar, chegava ao ridículo de eliminar os alvos apenas pela ordem indicada na lista. Era o seu modus operandi, tanto como escritor como assassino profissional. Cumpria os seus objectivos a tempo e horas.

Neste momento, encontrava-se numa fase complicada da sua vida. Contrariamente a todas as expectativas, o seu último livro estava a ter uma aceitação razoável e atingira o nível de vendas necessário para que o seu editor lhe telefonasse a pedir mais um livro para dali a seis meses. Fácil. Eram as boas notícias do dia.

Fácil, se tivesse apenas o livro para fazer. Isto porque, imediatamente após falar com o seu editor (ou talvez tivesse sido antes), o seu outro agente telefonara-lhe avisando-o da chegada de uma carta com uma nova lista de trabalho. Três meses no máximo. Ou seja, após um longo período de tempo regiamente dedicado ao cultivo da pasmaceira eis que surge isto. As boas notícias trazem sempre as más em anexo, como se costuma dizer.

Feitas as contas, se gastasse os três meses a cumprir o contrato, ficava ainda com três meses para escrever o livro. Talvez chegasse. Se tivesse uma ideia boa, três meses era tempo mais que suficiente para passá-la para o papel. O problema era que não tinha nenhuma ideia. Nem boa, nem má. Nada. O seu cérebro estava quase vazio de inspiração ou tão cheio que chegava a entupir o tubo de escoamento das ideias. Talvez enquanto cumprisse o contrato, a inspiração surgisse.

Mexia a bebida devagar, observando as pessoas à sua volta. A canela dava um gosto diferente à bebida. Diferente e, ao mesmo tempo, estranho. Não se conseguia decidir se era bom ou mau, era estranho. É um problema de muita gente – não saber tomar uma decisão sem ter tomar um ponto de comparação. Ricardo pertencia a esse género de pessoas. Tudo o que fazia comparava com o que fosse mais parecido possível. Tornava-se chato, e ele próprio o admitia mas, esta sua peculiaridade comportamental, ajudava-o nas suas duas profissões. Cada trabalho era comparado ao anterior, tanto para o melhor como para o pior e isso fazia-o rever os seus erros. Neste caso, a canela era o ponto de divergência entre uma bebida e outra. Bem lhe disseram que não devia beber o cappuccino com aquilo, mas Ricardo, como todas as vezes que lhe diziam qualquer coisa, não dera qualquer importância ao recado. Não sabia mal, até que se bebia bem, era uma fuga à rotina. Quem cai na rotina, cai no desleixo. Muitas vezes ouvira dizer isso. Todos os grandes profissionais – fossem de que áreas fossem – diziam isso. A rotina vicia o corpo e retarda os reflexos, faz o cérebro ficar mais lento. O que é preciso é um desafio para não se estagnar, um impulso para continuar, para se fazer mais e melhor. Estes seis meses iam ser um verdadeiro teste às suas capacidades, uma espécie de Doze Trabalhos de Hércules.

Deu um último golo no cappuccino e olhou para a mesa em frente. Eram quase dez da manhã. O local estava consideravelmente vazio em relação ao que estava há uma hora atrás. A maior parte das pessoas já se tinha ido embora. Uns para o trabalho, outros para o emprego e outros ainda que ficavam por lá a conversarem por mais um bocado. Talvez por não fazerem nada na vida, talvez por terem quem lhes fizesse tudo.

Continuou a olhar para a mesa em frente. Os três homens, que até aí a ocupavam, levantaram-se e saíram. Ricardo mantinha o seu olhar fixo na mesa. Fixo nas chávenas de café que repousavam vazias e no cinzeiro com uma beata mal apagada cujo fumo remanescente subia sem parar em direcção ao infinito, atraído pela força da ventoinha.

Uma imagem começou a formar-se na sua cabeça. Era uma imagem difusa e abstracta. Talvez algum dia viesse a ter uma forma definida mas, até lá, era apenas forma sem forma, linhas sem fim visível. Se tivesse tempo, podia ser que tentasse decifrar o que o seu cérebro lhe oferecia. Infelizmente, tempo era coisa que não dispunha muito nesse momento.

Levou o copo à boca mais uma vez e apanhou os últimos restos de natas com o auxílio da língua. De seguida, levantou-se e, tal como o resto da clientela antes dele, pagou e foi-se embora. Uma mulher loira cruzou-se com ele quando ia a sair do café e sentou-se na mesa onde anteriormente haviam estado os três homens a conversar. A empregada já tinha limpo a mesa. Dos objectos que haviam inspirado a visão de Ricardo já não restava nada.

~º~

Apanhou o autocarro quase por acaso, pode-se dizer. Isto é, não fosse o acaso do autocarro vir com dez minutos de atraso causados por uma paragem inesperada para mudar um pneu, Ricardo teria ficado cerca de quinze minutos à espera do próximo. Era uma diferença mínima, mas ele tinha todos os segundos contados. Um minuto é muito tempo. À escala global, muita coisa acontece num minuto, muita gente nasce num minuto, muita gente morre num minuto. Muita gente morre num segundo, se formos a ver bem. Para Ricardo todo o tempo era precioso. Segundo ele, o tempo era pior que uma mulher gorda porque podia esmagá-lo sem que ele desse por isso.

O atraso do autocarro foi uma casualidade, uma entre as muitas que fazem o nosso quotidiano. O sistema social, as próprias vidas humanas estão tão intrinsecamente ligadas umas às outras que o mais pequeno incidente pode ter sérias repercussões na vida de uma pessoa a vários quilómetros de distância.

Quando o autocarro chegou, Ricardo pensou mais de duas vezes se devia ou não entrar. O tempo urgia, queria começar o trabalho o mais depressa possível, mas o autocarro estava cheio. Mesmo assim, entrou. Não tinha tempo para esperar pelo próximo autocarro.

O autocarro não estava apenas cheio. Estava a abarrotar. O conceito de lata de sardinhas humanizada que as horas de ponta originavam era um conceito que ele achava perfeito. O lugar daquelas (pensava pessoas, mas sentia que isso era um eufemismo) era mesmo numa grelha – assadas e carbonizadas até serem apenas cinzas. Não suportava aquela gentinha. Não se permitia envolver emocionalmente com ninguém. Não gostava de ninguém. Não odiava ninguém. Era neutro no aspecto sentimental. Gostava do que fazia e sentia que para ser bom nisso, tinha de se manter afastado dos sentimentos mundanos, mas tudo tinha o seu limite e estas viagens nestes autocarros com aquela gente ultrapassavam todas as barreiras da sua paciência.

Gostava de pensar que aquelas viagens eram apenas um sonho, que a sua vida era apenas um livro, que aquelas pessoas eram apenas figurantes. O único problema de serem figurantes é que ocupavam o mesmo espaço que ele, consumiam o mesmo ar que ele. Por outras palavras, incomodavam-no. No fundo, tinha pena delas, mas era indispensável que a sua cruzada de tornar o mundo um lugar melhor não entrasse em conflito com a sua actividade profissional.

Infelizmente para elas, Ricardo era um homem de princípios. Fizera uma promessa a si mesmo de só matar alguém pelo princípio de receber dinheiro por isso. Essas pessoas, pensava ele, eram bafejadas pela sorte. A todos os outros, ele apenas os observava. Uns com repúdio, outros com inveja, outros com tristeza, espanto, mas sempre com pena de não lhes poder enfiar vários balázios no centro das suas caixas cranianas conforme o seu prazer assim o ditasse.

Até à sua casa faltavam ainda quinze minutos. Novecentos segundos. Nove mil décimos. Noventa mil centésimos. Novecentos mil milésimos. Se pensasse assim talvez conseguisse convencer-se a si mesmo que tinha ainda muito tempo pela frente. Poderia dar-se ao luxo de começar o serviço quando quisesse, parar para descansar quando quisesse. Seria mestre absoluto do seu tempo. O inconveniente desta contagem do tempo é que esta passa demasiado rápido para se poder acompanhar. Por vezes chega a ser mais veloz que o próprio tempo, porque o tempo visível deixa a sua marca e este não.

Mais uma paragem e chegava a casa. Abria caminho por entre a multidão com o auxílio de fortes braçadas. Parecia que estava numa orgia urbana, roçando em tudo quanto era corpo. Por vontade própria tinha saído pela porta da frente; não tinha vontade nenhuma de mergulhar naquele mar de gente; mas, quando viu o motorista a sujeitar um mulher de idade já muito avançada a sair pela porta de trás, apercebeu-se que não podia contar muito com a boa vontade deste. Escusado será dizer que essa senhora só conseguiu duas paragens à frente da que pretendia e, mesmo assim, só o conseguiu porque foi arrastada pelo escoamento de gente.

Uma melhor comparação que a lata de sardinhas humanizada seria sem dúvida a do autoclismo. A cada paragem que fazia, o autocarro deitava para fora todos os seus dejectos. E a cada paragem novos dejectos entravam. Os filtros, ou não existiam ou não funcionavam.

Ricardo ia conseguir na sua paragem e não apenas com o auxílio do escoamento. Era graças ao seu esforço que ele podia sair quando muito bem lhe apetecesse.

Às onze da manhã, o autocarro parou e Ricardo saiu.

~º~

Entrou no seu apartamento dez andares acima do chão. Decoração barata e sem grandes adornos. O seu apartamento nunca faria parte das páginas de nenhuma revista de decoração de interiores, nem era essa a sua intenção. Trazia na mão o envelope contendo a lista de alvos de que o seu agente lhe falara. Não o abrira. Ainda.

Ricardo passara a sua infância nas ruas, sem ninguém a quem recorrer e era nisso que residia a sua força. Mesmo quando conheceu o homem que tratou dele como se fosse seu filho, o homem que viria a tornar-se o seu actual agente, continuou a ser independente. Passou por muitas privações ao longo da sua vida e foram essas mesmas privações que o fizeram desenvolver um sentido muito próprio de ver as coisas. Ricardo vira muita gente na sua situação a optar pelo crime. Ele não. Ele optara por ajudar as pessoas. Privando-as do seu sofrimento. Fazia-o por respeito e agradecimento ao homem que o salvara da morte certa. Era um fornecedor da velha senhora, mas não gostava da palavra morte para o que fazia. A morte é natural. O que ele fazia era uma libertação.

Caminhou até ao sofá e sentou-se. Ligou a televisão e deixou-se levar pelo mundo do audiovisual. Em boa hora o fez. Estava a dar o programa de culinária da manhã. Quem sabe não lhe daria uma ideia para o seu almoço. Via sempre o programa de culinária. Sempre que podia, quer dizer. Gostava de experimentar pratos novos mas acabava sempre por recorrer ao microondas e às deliciosas pizzas congeladas que comprava a poucos passos de casa a um euro e setenta cêntimos cada.

Pegou numa caneta e num papel e começou a apontar os ingredientes e o modo de preparação. Escrevia depressa mas não depressa o suficiente para conseguir acompanhar o ritmo acelerado e frenético do cozinheiro da televisão. Se tivesse um vídeo podia gravar aquilo e ver mais tarde, rebobinando e avançando conforme a sua velocidade de captação. Finalmente, o programa acabou e Ricardo pousou a caneta.

Olhou para o que escrevera. Gatafunhos ilegíveis. Era o que dava escrever à pressa. Transformou o papel numa bola e deixou-o em cima do sofá. Tinham sido minutos perdidos. Tempo desperdiçado numa tarefa que ele sabia ser inútil. Assim que abrisse o envelope e tomasse contacto com as pessoas a eliminar iriam acabar aqueles fetiches. Seria apenas trabalho, muito trabalho e pouco descanso. Se tivesse tempo, talvez comesse uma sopa. Talvez. Agora, programara vinte minutos para aquecer uma pizza no microondas, tomar contacto com a lista enquanto comia e preparar as coisas para começar o serviço.

Levantou-se do sofá e caminhou até à cozinha. Abriu o frigorífico e tirou de lá uma pizza. Queijo, cogumelos, fiambre e ananás era os ingredientes mencionados na embalagem; isso e mais uns compostos e reguladores que ele não sabia para que é que serviam. Rasgou o invólucro de plástico que protegia a pizza das impurezas do ar e das demais superfícies e colocou-a no prato giratório do microondas.

Oito minutos era o tempo indicado. Durante esse período sujeitou-se às radiações imanentes do electrodoméstico, deixando-se ficar a observar o efeito das ondas de calor no que em breve iria ser o seu almoço. O queijo derretido acompanhava com o seu borbulhar os movimentos convulsivos da massa. Era um bailado alimentar que ocorria perante os seus olhos de espectador atento.

Os oito minutos estavam a chegar ao fim. A campainha tocou, avisando-o de que o almoço estava pronto. Ricardo abriu a porta do microondas. Um pequeno fio de vapor emergia da pizza. Pegou num prato e, com o auxílio de uma espátula, tirou a pizza do prato giratório e passou-a para o outro prato. Com um punhado de oregos deu o último retoque no quadro.

Ia acompanhar a pizza com um refresco de café com sumo de laranja e canela. Estimulante, vitamina C e afrodisíaco. Três em um. Costumava acompanhar as pizzas com um café com natas, mas não tinha natas no frigorífico (fez uma nota mental de comprar um pacote da próxima vez que fosse ao minimercado) e o tempo quente fazia o seu corpo implorar por qualquer coisa refrescante.

Abriu o envelope com a faca e tirou cinco folhas de cores distintas, contendo o nome, a morada e uma fotografia da pessoa a eliminar, entre outros dados mais ou menos importantes. Começou por ler os nomes. Alguns, conhecia. Outros não. Reconhecia um nome em particular, Manuel Ribeiro de Azevedo. Fora seu patrão nos seus tempos de guarda-nocturno. Dois eram figuras importantes do mundo dos grandes negócios. Dos outros dois nunca tinha ouvido falar.

Observou as fotografias com atenção. Três empresários, uma mulher e um dealerzito de rua. Este era o primeiro da lista. Felizmente para ambos, Ricardo sabia quem era. Não apenas isso. Sabia onde ele costumava estar. Ainda por cima era perto de casa. Podia ir lá assim que acabasse de almoçar. A mulher também não lhe era desconhecida de todo. Tinha a impressão de já a ter visto lá no café. Talvez já tivesse lá ido tomar o pequeno-almoço. Talvez. Mas, em dez anos já muita gente foi lá tomar o pequeno-almoço. O seu sentido de observação era grande mas não grande o suficiente para se lembrar de todas as caras que calhavam a passar no raio de alcance do seu espectro visual. Era a última da lista. Os três VIPs ficavam no meio.

Era uma lista bastante variada. Bem melhor que a última. O resultado de trabalhar com alvos aleatórios era este. O seu agente reunia uma lista de alvos em função da proximidade que tivessem. Organizava a lista de modo a que ficasse tipo uma teia, tendo cuidado para que Ricardo não ficasse no meio do tear.

Normalmente, não havia qualquer ligação entre Ricardo e as suas futuras vítimas. Para não atrair suspeitas. Desta vez, porém, haviam não um, não dois mas, possivelmente, três pontos de ligação. Teria que ter o dobro, talvez o triplo do cuidado, para não deixar pistas para a polícia. Respeitava o trabalho deles, por isso não suportava que eles não compreendessem o dele. Servir e proteger. Ele não protegia, mas servia. Será que não chega? Um dia destes ainda havia de trocar algumas impressões com um agente. Mas se, para isso, tivesse de ser preso preferia não ter que o fazer. Valia mais guardar as suas impressões para si mesmo.

Guardou a lista na carteira e colocou o envelope no saco do lixo. Passou o prato e os talheres por água e deixou-os ficar em cima do lava-loiça. Quando voltasse lavava-os.

Dirigiu-se ao seu quarto. Da sua mesa-de-cabeceira tirou um revólver. Abriu-o e verificou o número de balas. Seis no tambor mais uma no cano. Se tudo corresse bem só iria precisar de cinco. Só no caso de alguma eventualidade é que iria precisar das outras duas.

Abriu o guarda-fatos e tirou um cinto parecido com aqueles que a polícia usa para transportar armas. Era uma lembrança dos seus tempos de guarda-nocturno. Bem como o revólver. Tirou a t-shirt e colocou-a em cima da cama. Guardou o revólver no coldre e apertou o cinto. Eram lembranças não autorizadas, mas lembranças.

Tinha sido guarda-nocturno numa altura em que o negócio andava fraco. Precisava do dinheiro e conseguira arranjar aquele emprego. Não era mal pago e ficava com o dia todo livre. Felizmente durou pouco tempo. Nunca fora homem de cumprir horários, era rigoroso a cumprir os seus, mas não os dos outros.

Tornou a vestir a t-shirt. Tirou também um casaco para disfarçar o alto na coluna. O calor era imenso mas se fosse apenas de t-shirt, era capaz de dar mais nas vistas. Em Lisboa o que não falta é malucos. Ricardo não gostaria de ser um, mas se fosse preciso era capaz de se fazer passar por um.

Saiu do quarto e voltou à cozinha. Os vinte minutos que programara já iam em trinta. Tinha que começar a ser mais rápido que isso. Colocou a embalagem da pizza vazia e o plástico dentro do saco do lixo. Espreitou em redor por mais algum papel esquecido. O papel com os seus últimos rabiscos culinários repousava esquecido em cima do sofá. Colocou-o também no saco. Deu-lhe dois nós e pegou nele. Dirigiu-se para a porta de saída.

Às doze horas, Ricardo saiu do seu apartamento. Carregou no botão do elevador e esperou até que este chegasse. Entrou e carregou no botão do R/C. Em menos de trinta segundos ia sair do prédio. Em vinte e seis segundos exactos, a caçada ia finalmente começar.

UM CAPPUCCINO VERMELHO

Janeiro 2, 2008 por joelgomes

O PLOT

Ricardo é um escritor de policiais que nas horas vagas trabalha como assassino profissional. No dia em que é contratado para escrever um novo livro, recebe uma lista com os nomes de dez pessoas que têm de ser eliminadas.

Longe dali, João, um outro escritor de policiais começa a escrever sobre um escritor de policiais que, nas horas vagas é assassino profissional.

Quando os seus mundos colidem, surgem os problemas.

A BASE

Escrevi este livro para concorrer a um Prémio Literário promovido pela FNAC e pela Teorema em 2001. (Não ganhei)

A origem desta história está perdida algures na minha mente. Talvez fosse certo café que frequentava em Lisboa (até aumentarem o café para 65 cêntimos), talvez fosse a onda de policiais que atingiu na altura, ou mesmo uma rapariga que passou por mim no metro do Marquês. O que quer que tenha sido serviu como inspiração para isto.

Gosto da imagem do assassino profissional como um sujeito sem sentimentos, que faz o que tem a fazer sem remorsos, mas também sem grandes orgulhos.

De início, a história ia ser só escrita com base no personagem Ricardo. A introdução do personagem João veio enriquecer mais a história, na medida em que pude criar um conflito interno mais intenso.

BIO (de BIOGRAFIA) NÃO DE IOGURTE

Janeiro 2, 2008 por joelgomes

A 14 de Fevereiro de 1980 deu-se finalmente como provada a influência directa do divino em questões mundanas e terrenas. O mundo não o pediu, é certo, mas quem hoje pode negar o bem que Joel Gomes (glória!) trouxe ao mundo?

O sujeito que, nos dias de hoje, só veste preto e tem cabelo comprido – já vamos à piadinha do gótico, calma – começou por ser uma criança tímida e reservada (com ocasionais laivos de espontaneidade nem sempre compreendida num contexto social reservado) e é hoje um adulto tímido e reservado, continuando com ocasionais laivos de espontaneidade estudada mas, mesmo assim, ainda não compreendida.

Joel aventurou-se pela primeira vez no mundo da escrita com o seguinte texto: “Fui ao parque. Volto já.”

Com apenas sete anos já se notava na escrita de Joel uma preocupação clara com o espaço e o tempo. A utilização de um sujeito implícito na oração, a negação de um ‘eu’ que sabemos estar presente mas, ao mesmo tempo, oculto; tudo marcas óbvias dum génio ainda longe de conhecer o seu total potencial.

Porém, as preocupações de Joel quanto ao espaço e ao tempo não se resumem a estes dois temas como meros conceitos abstractos. Há aqui uma clara especificação de elementos. O parque como local de recreio, de contacto com a natureza, onde tantos e tantos momentos se passam. Depois, o futuro; o regresso rápido a casa, ao ambiente de regras sociais e familiares. É quase como se Joel nos dissesse “Vou aproveitar o tempo que ainda tenho livre para apreciar as coisas boas da vida, antes que elas acabem.”

Bonitas palavras.

Só foi pena a mãe de Joel o ter apanhado a sair de casa. Quis o destino que, por acaso, Joel estivesse de castigo. Enfim…

Já de seguida, a prometida piadinha do gótico.

Nas palavras de Joel:

Em resposta a quem me pergunta se sou gótico, pergunto-vos: ter cabelo comprido e usar só roupa preta torna uma pessoa gótica? Alguns acreditam que sim. Mas porquê só rotularem os mais jovens com essa designação? Eu vejo velhos e velhas na rua, vestidos de preto, e ninguém lhes pergunta se são góticos ou satânicos. Podem ser. Os movimentos gótico, satânico e outros não começaram agora. É bem possível que hajam velhos que reúnam todas as quintas-feiras 27, façam círculos no chão com giz de cor (azul ou verde), acendam velas com cheiro a patchouli e adorem o seu Mestre. Assim como é possível haver jovens de 20 anos viúvos.

Pergunto também a essas pessoas o contrário: se eu usasse só branco, o que seria? Médico? Papa? Hare krishna?

Houve um sujeito que me perguntou se eu era gótico. Respondi-lhe que não. E ele disse-me que eu tinha de ser por causa da roupa.

Ora, que perguntem é uma coisa, que digam, que insistam, é outra completamente diferente. Críticas à minha indumentária vindas dum sujeito com sapatinhos de vela, calça preta vincada e camisinha branca passadinha a ferro levaram-me a colocar-lhe a seguinte questão:

- Diz-me, quando vais na rua é hábito ouvires as pessoas dizerem “É uma bica cheia e uma água com gás.” Ou “Quando puder traga um pires de tremoços.”?

- Não… Porquê?

- Porque com essa roupa, tens de ser um empregado de restaurante.

E dos rascas, acrescentei.

Os amigos dele riram-se e ele ficou envergonhado. Azar. É pra aprender.

Esta história foi a piadinha do gótico. Já de seguida revelo-vos por que razão optei por usar apenas preto: porque sim.